Café com Canela: a ausência de diretoras negras no cinema nacional e a militância de um filme afetivo

Em 1984, a diretora Adélia Sampaio lançava Amor Maldito, filme que seria reconhecido – e prestigiado -, hoje, como o primeiro longa-metragem de ficção dirigido por uma mulher negra no Brasil a estrear comercialmente. Desde então, 34 anos se passaram até que o segundo longa brasileiro de ficção dirigido por mulher negra chegasse às salas de exibição. Co-dirigido por Ary Rosa e Glenda Nicácio, Café com Canela estreou, em agosto, carregando consigo esse título importante e complexo: ao mesmo tempo em que é digno de comemoração, também revela o pior do nosso cinema brasileiro excludente.

Ainda que separados por mais de 30 anos, a dificuldade de distribuição é um dos obstáculos comuns às duas obras. Nos anos 1980, Adélia Sampaio precisou distribuir Amor Maldito como um filme erótico para conseguir exibi-lo em algumas salas – isso porque a trama, baseada em fatos reais, trata do envolvimento conturbado entre duas jovens mulheres. Já Café com Canela foi distribuído graças aos recursos do Prêmio Petrobras de Cinema, obtido no Festival de Brasília.

‘Café com Canela’ / Divulgação

Claro que ambos, infelizmente, alcançaram um público muito restrito. Distribuição é um problema que acomete a grande maioria dos filmes brasileiros. Quando se trata de filmes independentes e dirigidos por mulheres negras, o cenário piora vergonhosamente. Justamente por isso, é necessário que falemos sobre esses filmes; sobre seu valor cultural imensurável.

Apesar de todos os fatores que conspiram contra sua existência, Café com Canela é otimista, esperançoso, afetivo e encantadoramente subversivo. Ambientado no Recôncavo Baiano, o longa trata do reencontro de duas mulheres negras que não se viam há anos, mas que, de alguma forma, foram importantes nas vidas uma da outra. Margarida (Valdinéia Soriano) vive em São Félix, isolada e amargurada pela dor de perder um filho. E Violeta (Aline Brune), moradora de Cachoeira, encara as batalhas do dia-a-dia enquanto lida com traumas do passado e cuida da avó idosa.

Além do forte protagonismo feminino negro – na frente e atrás das câmeras -, o filme se destaca por, em tempos de tanto ódio e individualismo, trazer ao cinema uma narrativa descentralizada, que vem do interior da Bahia para falar sobre comunidade, ancestralidade, diversidade, parceria, cotidiano e relações humanas.

Sensorial, emocionante e com pequenas doses de realismo fantástico, Café com Canela comprova que variar estéticas visuais, estilos narrativos, perfis de personagens, cenários e sonoridades é de uma riqueza profunda. Nos enquadramentos, na cinematografia, nos movimentos de câmera, interpretações e comportamentos, encontramos um filme que, de certa forma, apela para o ancestral para constituir o contemporâneo. Em tela, essa combinação é simultaneamente desafiadora e reconfortante.

Violeta (Aline Brune) e Margarida (Vadinéia Soriano) / Divulgação

Não há como sair de uma exibição do filme de Glenda Nicácio e Ary Rosa sem estar acompanhado (a) pela certeza de que, sem repensar o passado, não existe possibilidade de futuro. E o futuro/presente que os diretores constroem neste longa-metragem é de tamanha empatia que nos convida, gentilmente,  a refletirmos sobre nossa importância, enquanto indivíduos, diante do que é coletivo.

Quando Violeta retorna à vida de Margarida e lhe oferece a possibilidade de recomeços e convivências, as coisas mais simples voltam a ser belas. O sentido da palavra sororidade surge de maneira poética e genuína. Além disso, é importante destacar a naturalidade com que os personagens coadjuvantes engrandecem a trama trazendo questões relacionadas ao casamento homossexual, construções de masculinidade, família, morte, solidão e amizade.

Por tudo isso, Café com Canela é único no cenário do cinema nacional contemporâneo. Não só porque é dirigido e protagonizado por mulheres negras, mas também porque enfrenta temas tabus com espontaneidade, delicadeza e maturidade. Este é um filme que , sorrateiramente – no bom sentido – mexe com o público. Ele enche os olhos, o coração e ainda nos incita a sermos agentes de transformação social.

Assista ao trailer:

(Fonte: Arco Audiovisual / YouTube)

 

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Ficha técnica

Direção: Ary Rosa e Glenda Nicácio

Duração: 1h40

País: Brasil

Ano: 2018

Elenco: Valdinéia Soriano, Aline Brune, Babu Santana

Gênero: Drama

Distribuição: Arco Audiovisual

 

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