Crítica: Cidade Invisível (Netflix)

Marcando a estreia de Carlos Saldanha (diretor das animações “Rio” e “A Era do Gelo”) na criação de live-actions, Cidade Invisível, nova série brasileira original Netflix, tem como premissa um encontro inusitado entre a fantasia folclórica e o thriller criminal. A trama, baseada numa história de Carolina Munhóz e Raphael Draccon e ambientada no Rio de Janeiro, desenvolve-se a partir da morte de Gabriela (Julia Konrad), esposa do policial ambiental Eric (Marco Pigossi), num misterioso incêndio florestal. 

‘Cidade Invisível’/ Divulgação

Alguns dias depois de ficar viúvo, de volta ao trabalho, Eric encontra um boto-cor-de-rosa, animal de água doce, morto na areia da praia. Surpreendentemente, as pistas sobre as causas do incêndio que vitimou Gabriela se cruzam com as do aparecimento do boto, e a obsessão de Eric em descobrir a relação entre os casos acaba por direcioná-lo ao encontro de diversos seres que habitam a imaginação dos brasileiros.

Um Boto (Victor Sparapane) assassinado perto do mar, um Saci-Pererê (Wesley Guimarães) que mora em uma ocupação popular no centro do Rio de Janeiro, uma bruxa Cuca (Alessandra Negrini) que assume forma de borboleta e um Curupira (Fábio Lago) que, amargurado, abandonou a fictícia Vila Toré, reserva localizada nos arredores da capital e ameaçada pelos interesses de uma construtora. Repaginando e catapultando a cultura popular brasileira para o mundo, Cidade Invisível homenageia todo um universo mágico rico em elementos e ainda conta com excelentes efeitos visuais, elenco impecável e uma mistura de gêneros narrativos bastante atrativa.

O INVISÍVEL, AS BORDAS

Dos movimentos de luta por moradia nos centros urbanos à luta de uma comunidade ribeirinha pela defesa da floresta. Na série, personagens muito conhecidos do folclore nacional aparecem inseridos, a partir das bordas, nas dinâmicas do Rio de Janeiro contemporâneo. São eles os representantes de submundos invisibilizados nas narrativas hegemônicas, mas sempre lembrados de geração em geração pela tradição oral que conta o Brasil com base nas maravilhas do conhecimento popular.

Imagem: divulgação

Perspicaz, o enredo utiliza a mitologia do país para tratar do insólito que permeia a realidade, constituindo, assim, um Rio de Janeiro complexo, contraditório e cheio de nuances. Disputado por diferentes interesses, resultado das mais variadas relações e interações. Um lugar que possui características próprias, embora seja também espelho de todo um contexto macro. 

Por outro lado, esse universo de fantasia proposto pela obra enfrenta em si mesmo uma contradição: apesar de visivelmente pretender homenagear a tradição oral, o simplismo dos conflitos e a escolha de protagonismos da série colocam questões como as indígenas em segundo plano, afastando da condução da narrativa justamente as experiências daqueles que, de acordo com seu entendimento de mundo, originaram as lendas retratadas.

DO BRASIL PARA O MUNDO

Ao arrastar o prático e racional Eric para dentro de um redemoinho de percepções extraordinárias sobre seu entorno, Cidade Invisível consegue a façanha de unir o simbolismo de figuras fantásticas que circulam pelo imaginário da maioria dos brasileiros desde a infância ao formato audiovisual que mais conquista audiência em todo o mundo na atualidade. Outra vez, porém – e a despeito do excelente trabalho de Pigossi-, sob a perspectiva da jornada do herói de um sujeito padrão que finalmente é confrontado por ângulos diversos da realidade.

As origens e detalhes de cada lenda não chegam a ser destrinchadas, já que, para a trama, o importante parece ser elaborar sentidos para a coletividade das entidades apresentadas. O sobrenatural folclórico, então, desempenha a função principal de cativar o espectador via afetividade e memória, acenando para problemáticas sociais. Ao mesmo tempo, fórmulas de ação, investigação e suspense, aqui, claro, apresentadas com contornos particulares e mágicos, aproximam da história todo tipo de público – inclusive o internacional.

Hábil na combinação de gêneros, Cidade Invisível compõe um universo ficcional nacionalmente familiar, promissor e com alto valor de entretenimento, mas não escapa de tropeçar nas cômodas armadilhas dos modos mais comerciais de contar histórias. 

Trailer:
(Fonte: Netflix Brasil/ YouTube)

Ficha técnica 

Criação: Carlos Saldanha

País: Brasil

Ano: 2021

Elenco: Marco Pigossi, Alessandra Negrini, Jéssica Córes, Julia Konrad, José Dumont, Victor Sparapane, Wesley Guimarães, Fábio Lago

Gênero: Drama, Suspense, Fantasia

Distribuição: Netflix

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