Crítica: One Day At a Time

Pouco mais de um mês atrás, um pedido chamou atenção na internet: a roteirista norte-americana Gloria Calderón Kellett, showrunner da série One Day At a Time (“Um Dia de Cada Vez”, em tradução livre), utilizou as redes sociais para contar que o programa corria o risco de ser cancelado pela Netflix, caso não houvesse aumento de público.

Kellett chegou a pedir para que as pessoas assistissem ao menos a quatro episódios. A roteirista disse também que ama estar envolvida nessa produção e que não gostaria que ela acabasse com apenas duas temporadas disponíveis.

As redes sociais reagiram de pronto à postagem da roteirista e, em pouco tempo, hashtags foram levantadas pedindo pela continuidade do programa, incentivando novos espectadores a darem uma chance à série. Depois de tanta repercussão, Kellet agradeceu o amor e o apoio dos fãs e disse que, em breve, será informada sobre os rumos de seu trabalho.

Imagem: divulgação

E POR QUE ONE DAY AT A TIME CAUSOU TANTO BURBURINHO?

Porque esta comédia de situação (sitcom) é uma das séries mais carismáticas dos últimos tempos. A produção original Netflix é um remake da série homônima exibida de 1975 a 1984, pela CBS. Nesta versão atualizada, Justina Machado interpreta a protagonista Penelope, uma enfermeira, ex-militar, divorciada e que precisa se adaptar à vida de mãe solo, solteira e civil.

Penelope vive com a filha adolescente e feminista Elena (Isabella Gomez), com o filho pré-adolescente e narcisista Alex (Marcel Ruiz) e com a mãe Lydia (Rita Moreno), uma cubana que migrou para os EUA depois que Castro assumiu o governo de Cuba. A família ainda conta com um agregado inusitado, o dono do prédio onde moram, Schneider (Todd Grinnell).

Cada episódio de One Day At a Time acompanha o cotidiano das personagens, suas interações e relações regadas a boas sacadas e às tradicionais risadas e palmas de uma “sitcom raiz”.

No decorrer das duas temporadas, vários assuntos e discussões muito atuais (e geralmente pautadas na internet) são abordados, tais como o tabu que é assumir ter depressão, maternidade solo, desigualdade salarial entre homens e mulheres, xenofobia e conservadorismo comportamental e político. Tudo isso pode parecer denso, mas o roteiro garante a diversão e as gargalhadas – demonstrando que a equipe procura se manter informada sobre piadinhas das redes sociais.

Uma das montagens que circulou pela internet . (reprodução Netflix / autores desconhecidos)

A relação entre avó, mãe e filha é outro dos grandes méritos desta produção. Enquanto Lydia (ou abuelita – “vovó”, em espanhol – como é carinhosamente chamada pela família) representa uma mulher mais conservadora (mas ainda assim cheia de empatia), Penelope carrega consigo todos os dilemas da mulher moderna. E Elena, por sua vez, representa os sonhos e as batalhas de uma juventude repleta de novas demandas. O que as une, além do amor e de serem mulheres excepcionais,  é que todas elas são cubanas, e com muito orgulho.

E aqui entra outra abordagem notável. Schneider, o dono do prédio, é muito bem quisto pela família de Penelope, e faz de tudo para ajudá-la. No entanto, o sujeito é também um boa-vida, que vive às custas dos imóveis do pai canadense. O personagem representa o homem branco, privilegiado, classe média e heterossexual, cheio de boas intenções, mas que, “vira e mexe”, deixa seus privilégios escancarados. Por exemplo: toda vez em que alguém menciona as dificuldades de ser latino e imigrante, Schneider sente que sabe exatamente como é, já que migrou do Canadá – um país de “primeiro mundo”, localizado muito próximo aos EUA e onde também fala-se inglês. Uma falsa simetria e tanto.

Embora Schiner e Lydia digam ou façam coisas reprováveis com alguma frequência, é impossível não amá-los. São personagens exagerados em determinados momentos – afinal, trata-se de uma sitcom –, mas todos são extremamente humanos e verossímeis, e o trabalho dos atores é admirável.

O FENÔMENO RITA MORENO

Neste ponto, torna-se indispensável destacar especificamente o trabalho de Rita Moreno. Abuelita não seria o fenômeno carismático de personagem que é, ou arrancaria as risadas que arranca, se não fosse por Rita Moreno, a alma da série.

Rita Moreno como a Abuelita de ‘One Day at a Time’ / Divulgação

No começo de fevereiro, a atriz apresentou a categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar. Ela chegou ao microfone usando o mesmo vestido de quando foi premiada como Melhor Atriz Coadjuvante por seu trabalho em Amor, Sublime Amor, em 1962. Fazendo o sotaque carregado de Lydia, anunciou, com uma deliciosa gargalhada, que o filme chileno Uma Mulher Fantástica era o vencedor.

Quem assiste à Rita Moreno no auge de seus 86 anos em One Day At a Timeao som de “Dale, abuelita, dale!”, ou a vê no Oscar 2018 esbanjando bom humor com seu vestido de 56 anos, pode não imaginar o quanto essa mulher significa para a história do cinema.

De origem porto-riquenha, Moreno foi a primeira mulher latina a receber os prêmios mais importantes de Hollywood. Além do Oscar de 1962, ela ainda possui dois Emmys, um Grammy e um Tony. Mas, nem tudo são flores na história da artista.

Rita Moreno relatou, em sua autobiografia, que quase morreu por culpa do ator Marlon Brando. Ela atuou ao lado de Brando no filme The Night of the Following Day, em 1969, época em que os dois tiveram um romance. Dessa relação surgiu uma gravidez. Marlon Brando, então, teria exigido que a atriz fizesse um aborto. Depois de tamanha violência, Rita entrou numa depressão profunda e tentou se matar.

Foi assim que Rita Moreno testemunhou, através de sua própria trajetória, não apenas a história do cinema, mas também a história da misoginia no cinema. Hoje, as mulheres de Hollywood se levantam contra os abusos, assédios e desigualdades, mas há anos a indústria e seus homens cometem todo tipo de violência de gênero.

One Day At a Time, além de cativante e engraçada, possui a honra de ter Moreno agigantando seu elenco e fazendo comédia de qualidade. Às vezes, a produção peca pelo excesso de enaltecimento aos EUA, é verdade. Mas nada disso anula a competência da série como programa que diverte, emociona e provoca risadas enquanto propõe bons debates. Esperemos que o último episódio da segunda temporada seja um sinal. Ainda não é hora de perdermos a família Alvarez.

Ficha técnica

Criação:  Gloria Calderon Kellett, Mike Royce

País: EUA

Ano: 2017

Elenco: Rita Moreno,  Justina Machado, Isabella Gomez, Marcel Ruiz

Gênero: Comédia

Distribuição: Netflix

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