Crítica: Democracia em Vertigem (Netflix)

Vertigem. Vertigem é aquela sensação de perda de equilíbrio; de fraqueza, ou de uma descompensação que causa náuseas. Essa reação do organismo pode ser tanto fisiológica quanto, apenas, psicológica. Neste último caso, a vertigem vem de uma desestabilização da segurança – seja ela individual ou coletiva. Daí, para poetizar esse sentimento, de descontrole enjoativo, basta um pouco de sensibilidade.

Não é o caso da diretora de Democracia em Vertigem, a aclamada Petra Costa (Elena, Olmo e a Gaivota); já que sua percepção emotiva é a das mais raras e refinadas. Assim, identificar somente um mínimo de sensibilidade em Petra, que também roteirizou e produziu o seu terceiro longa-metragem, é reduzir a qualidade do mesmo.

No documentário original da Netflix, que estreou na última quarta-feira (19), a diretora da Vertigem esquematiza os motivos que a levam ao atual desamparo político. Em um resumo analítico das duas últimas décadas, narrado com sua própria voz, Petra parte da história de sua família para estancar uma ferida.

Mas, como relacionar o campo privado com o público; sendo que este extrapola qualquer concepção do que é, de fato, público, ao recontar os eventos mais recentes do Governo Federal? Alguns podem estar questionando-se sobre isso. No longa-metragem, a cineasta deixa claro em que posição da trama política a sua família está.

Imagem: divulgação

INTIMIDADE

Filha de um casal de militantes de esquerda, ex-presos e clandestinos da ditadura de 1964, Petra traça uma linha do tempo surpreendente. Em uma mistura de orgulho, lamento, franqueza e redenção, ela faz uma confissão; a multinacional Andrade Gutierrez, envolvida em esquemas de corrupção investigados pela operação Lava Jato, foi cofundada por seu avô.

Em determinado momento, imagens aéreas da construção de Brasília, gravadas pela avó de Petra, mostram o quão antiga é a ancestralidade política da cineasta. Em outro, ela revela o grau de parentesco que tem com o político tucano Aécio Neves; a mãe dele casou-se com um primo de seu avô. Já em um terceiro momento, Petra leva a mãe para conhecer a ex-presidenta Dilma Rousseff, em uma de suas entrevistas para o filme.

A honestidade da diretora, aliás, dá o tom de espontaneidade na hibridez de público com privado que é a sua produção; quando ela, com a calma voz, intercala a repetição de frases polêmicas – de gravações de áudios de políticos, notórias do grande público – com o simples dizer “de novo”, por exemplo. Ou, quando narra a caminhada do popular ex-presidente Lula por dentre um mar de políticos entusiasmados. E, até, quando perceptivelmente desanimada, admite: “eu não sei como essa história deve ser contada”.

Afinal, como transformar dois mandatos de Lula; um inteiro de Dilma; o impeachment de 2016, e a ascensão da direita reacionária em um longa de somente duas horas? E, ainda mais, como pincelar tudo isso com interferências de sua própria narrativa, sob uma tonalidade inteiramente poética? Mesmo que sair-se bem-sucedida pareça uma tarefa difícil, a diretora de Vertigem consegue.

Imagem: divulgação

LUZ E SOMBRA

De bela à sombria, a obra cinematográfica começa com imagens iluminadas pelo sol; logo que Lula vence a sua quarta candidatura, com a promessa de espelhar os interesses diretos das classes mais baixas do povo. De fato, e como o filme conta, o governo de Lula é capaz de verdadeiras maravilhas econômicas e pela igualdade. Mas, quando as coisas começam a ruir; o chão abre-se sob os pés de Petra, e o tecido social ganha rasgos, o céu crepuscular passa a servir de apoio à narração em off do golpe contra Dilma – como é pertinentemente esclarecido pela produção.

Então, quando o governo de Michel Temer ou a eleição de Jair Bolsonaro, finalmente, tomam o tempo de tela, o lamento nostálgico dá lugar a algo próximo do obscuro; o que encerra o filme de maneira ainda mais triste do que o seu início – e, logicamente, sem um final, propriamente dito, pela vigência dos fatos.

A certa altura, aliás, Bolsonaro aceita ser entrevistado por Petra e, como que levasse a equipe de filmagem à toca de um lobo, guia-os ao interior de seu gabinete; cuja parede de frente para a porta é decorada com retratos emoldurados de alguns dos presidentes da ditadura militar. “O terror da esquerda”, diz ele, quanto às figuras enquadradas, e como se soubesse das ideologias políticas e do histórico dos pais de Petra.

Imagem: divulgação

O PALÁCIO DA ALVORADA

Democracia em Vertigem termina com essa sensação. A de desespero. É assustador pensar que, em 2019, o nosso país é governado por alguém como Bolsonaro; que ocupa os corredores históricos do Palácio da Alvorada.

Antes dele, no entanto, em um áudio grampeado, Temer admite não conseguir dormir no Palácio; já que lá, brinca ele, “deve ter fantasma”. Por detrás das câmeras de Petra, realmente, a Alvorada parece um lugar mal-assombrado. Tanto quando vazia quanto ao encontrar-se abarrotada de pessoas – que recolhem os bens pessoais de Dilma (após o impeachment) –, a morada dos presidentes renova-se apenas nas trocas de políticos; até porque, outras figuras, como as de empresários, permanecem sempre as mesmas.

A “República das oligarquias do Brasil”, como vulgarmente conhecida, é dominada por grupos familiares de partidos; meios de comunicação, e tudo o mais que possa imaginar-se. Assim, a narração da diretora encerra o seu último tópico discutido no filme. Vertigem é tudo o que promete no emocionante trailer: alertar-nos através de poesia. Ao mesmo tempo, Petra consegue ser literal na sutileza do título da obra; já que a vertigem é o sentimento social que melhor adequa-se à instabilidade democrática.

Trailer oficial:

Netflix Brasil / YouTube

Ficha técnica

Direção: Petra Costa

Duração: 1h53

País: Brasil

Ano: 2019

Elenco: Lula, Dilma Rousseff, Michel Temer, Jair Bolsonaro

Gênero: Documentário

Distribuição: Netflix

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