Crítica: Duas de Mim

Não é de hoje que os filmes comerciais de comédia nacional têm fama de carregar multidões aos cinemas, mas isso começou a variar de acordo com o contexto sociocultural do momento. Em 2015, Loucas Pra Casar foi o filme nacional de maior bilheteria. Já em 2016, o polêmico e religioso Os Dez Mandamentos ficou em primeiro lugar. Agora, em 2017, Polícia Federal – A Lei é Para Todos fez grandes números, vendendo mais de 400 mil ingressos no primeiro fim de semana.

Tais números, que demonstram a preferência do público geral por filmes nacionais com conteúdos problemáticos – como piadas preconceituosas, estereótipos machistas e temáticas das religiões dominantes – são um reflexo da manifestação do conservadorismo em nosso país, que não é recente, mas que avança.

Ainda que filmes religiosos e politicamente conservadores tenham fincado seu lugar no cinema nacional, as comédias são sempre lançadas com alguma frequência e apresentam números bastante expressivos. Duas de Mim é um desses casos. Sua estreia no dia 28 de setembro rendeu mais de 80 mil ingressos vendidos no primeiro fim de semana.

Com direção de Cininha de Paula – experiente em produções televisivas da Rede Globo, como Escolinha do Professor Raimundo, Sai de Baixo e Pé na Cova – seu novo filme se propõe a retratar, de forma divertida, a vida de Suryellen (Thalita Carauta), uma mulher que vende marmitas pela manhã, trabalha lavando louça para um restaurante à noite e mantém sozinha o filho, a mãe (Maria Gladys) e a irmã mais nova (Letícia Lima), representando, assim, a dura rotina de muitas mulheres brasileiras.

Imagem: divulgação

Até certo ponto, tratar dos problemas do dia a dia e dos sonhos que uma mulher não consegue realizar – porque a sociedade não permite – de forma engraçada, parece ser uma proposta com muito potencial. Até mesmo o humor contido no fato de o cantor Latino interpretar um cover de si próprio chega a funcionar. No entanto, quando a protagonista come um “bolo dos desejos” e pede para se dividir em duas, as coisas começam a desandar. Isso acontece não apenas na qualidade do filme em si, mas atrapalha também a mensagem que ele poderia transmitir aos espectadores.

Quando a outra Suryellen surge, idêntica fisicamente, mas com uma personalidade completamente diferente da original, poderia ter surgido também uma demonstração de solidariedade da duplicata para com aquela mulher que tinha uma vida tão atribulada. Inicialmente, isso até acontece, mas a clone da protagonista logo se transforma no clichê da vilã que precisa ser derrotada, e qualquer chance de falar sobre sororidade – o apoio mútuo entre mulheres –, em uma comédia que conversa com milhares de pessoas, vai direto para o buraco.

A partir daí, diversos clichês de baixa qualidade são simplesmente jogados no filme; como a vilã louca que quer tomar o lugar de outra mulher, o machismo textual reproduzido em várias cenas, a mulher rica que não trabalha e só quer glamour e as piadas inaceitáveis com anões, em pleno 2017. Tudo isso para terminar com o Latino cantando algo chamado por ele de “reggaeton abrasileirado”, mas que de reggaeton não tem nada.

Duas de Mim poderia ser uma aposta interessante na mudança de rumo das comédias nacionais escrachadas. Em determinados momentos, algumas mensagens importantes até conseguem ser lançadas, mas, infelizmente, não é um filme que entrega o potencial que aparentava ter. Trata-se de mais uma comédia que tenta flertar com pautas que estão em alta no momento, mas que por vezes se perde no pior do humor conservador.

*Texto originalmente publicado em 12/10/2017

**Dados sobre bilheterias foram retirados do site AdoroCinema

 

Ficha técnica

Ano: 2017

Duração: 1h22

Direção: Cininha de Paula

Elenco: Thalita Carauta, Latino, Letícia Lima, Márcio Garcia

Distribuidora: Paris Filmes

País: Brasil

 

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