Crítica: Everything Sucks!

Na última sexta (16), estreou no catálogo da Netflix a série adolescente Everything Sucks!, mais uma produção original da plataforma. Ambientada nos anos 90, a série engloba os já conhecidos dilemas adolescentes, como primeiro amor e sexualidade, mas de uma forma raramente abordada para o público jovem.

Em 1996, a Boring High School, localizada na real cidade de Boring, no estado de Oregon (EUA), recebe diariamente seus excêntricos estudantes, em meio à puberdade. Luke (Jahi Winston) e seus amigos, Tyler (Quinn Liebling) e McQuaid (Rio Mangini), acabam de chegar ao ensino médio, e mal podem esperar para começar a viver a adolescência plenamente. Para complicar ainda mais essa fase tão atribulada da vida, Luke descobre que sua crush, o alvo de sua paixonite, é também filha do diretor. Kate (Peyton Kennedy), a jovem em questão, já tem, digamos, “outras prioridades”.

Luke (Jahi Winston) e Kate (Peyton Kennedy) / Divulgação

Ao longo dos curtos dez episódios, Kate vai cada vez mais a fundo em sua jornada para identificar a própria sexualidade. Inicialmente insegura, é, também, em sua amizade com Luke que a garota confirma seus interesses sexuais e define várias coisas importantes para uma jovem de sua idade. Enquanto isso, somos apresentados ao casal mais superficial e irritante que Boring (palavra que significa “chato” em inglês, portanto, Boring High School seria a “Escola Secundária Chata”) já recebeu: Oliver (Elijah Stevenson) e Emaline (Sydney Sweeney). Membros do clube de teatro, os dois não medem esforços para chamar a atenção de quaisquer pessoas, seja encenando mortes violentas no meio do refeitório ou terminando o namoro nos corredores na escola.

As referências à cultura dos anos 90 são realmente fortes na série, considerando que sua ambientação é fundamental para o desenrolar das subtramas. Se os personagens pertencessem à geração Z (jovens nascidos após a segunda metade da década em questão), por exemplo, portando smartphones e interagindo nas redes sociais, toda a dinâmica do grupo principal seria diferente. Como uma boa produção teen da época, vide 10 Coisas que Eu Odeio em Você (1999) e As Patricinhas de Beverly Hills (1995), Everything Sucks! traz fitas cassete, ska punk (ritmo musical popular naqueles tempos), o rock de Oasis, MTV, skatewear (“moda skate”), walkmans e grandes estereótipos adolescentes.

Oliver (Elijah Stevenson) e Emaline (Sydney Sweeney) / Divulgação

O que seria dos novatos sem a mimada Emaline para atazanar suas vidas, por exemplo? Ou de Boring High School inteira sem um diretor canastrão para envergonhá-la? Difícil saber, uma vez que a série, além de se apropriar de elementos tão característicos da época, acompanha um ritmo narrativo bastante original – para dizer o mínimo.

Ao mesmo tempo em que a produção se sai bem ao abordar não somente a sexualidade de Kate, mas também todo seu contexto pessoal – a relação com o pai, Ken (Patch Darragh), seu amor pela música de Tori Amos e sua instrospecção, devido os anos de exclusão social –, a série peca nas rápidas e recorrentes mudanças de foco. O problema não está na falta de um protagonista, porque o elenco pequeno é capaz de brilhar por conta própria quando demandado, mas, sim, nos pequenos absurdos vividos pelos jovens; como a falta de espontaneidade de alguns personagens, conflitos mal solucionados e demais situações, como Kate dirigir um ônibus escolar sozinha.

McQuaid (Rio Mangini) , Luke e Tyler (Quinn Liebling)/ Divulgação

Além do mais, uma das tramas mais aleatórias e sem graça é a de Ken com a mãe de Luke, a aeromoça e mãe solteira Sherry (Claudine Mboligikpelani Nako). Essa falta de interesse provocada se dá devido à dispersão da história dos jovens, abrindo espaço para o sentimentalismo exagerado e forçado do casal de pais. A realidade é que “ninguém” está interessado em Ken e Sherry, então, por que não simplesmente pular todas as suas cenas e deixar lugar para as tramas adolescentes? Aparentemente, a produção Netflix não soube estabelecer um núcleo secundário minimamente interessante. Mais Kate e menos Ken teria sido uma ótima opção.

Mesmo que Everything Sucks! seja um pouco cansativa de se acompanhar em determinados momentos, sua primeira temporada termina de forma “redonda” e abre espaço para um aprofundamento em questões realmente envolventes. Graças a isso, o espectador pode terminar a série com um sorriso no rosto. E, talvez, quem sabe, a original Netflix se mostre uma produção digna de atenção especial futuramente.

 

Ficha técnica

Criação: Ben York Jones, Michael Mohan

País: EUA

Ano: 2018

Elenco: Peyton Kennedy, Jahi Winston, Sydney Sweeney, Elijah Stevenson

Gênero: Comédia, Coming-of-age

Distribuição: Netflix

 

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