Samantha! é irônica e bem-humorada ao tratar da toxicidade do espetáculo brasileiro

Falar de comédia no Brasil é sempre uma tarefa difícil. Até pouco tempo atrás nós éramos o país que tocava a música da boquinha da garrafa, do grupo É o Tchan, em festas infantis com a maior naturalidade. Hoje, há quem reclame que o “politicamente correto” está “encaretando” o mundo e há quem já tenha entendido que, na verdade, ele exige que o humor seja o melhor de si mesmo, inteligente e combativo. Nesse cenário de mudanças nasce a terceira série brasileira original Netflix: Samantha!.

Criada por Felipe Braga, a série acompanha Samantha (Emanuelle Araújo), uma ex-estrela mirim da TV brasileira que integrava o grupo musical infantil Turminha Plimplom. Agora adulta, a protagonista lida com problemas pessoais e profissionais. Frustrada por nunca mais ter conseguido emplacar um sucesso, Samantha se divide entre criar dois filhos, perseguir a fama a todo custo e reatar seu casamento com o ex-jogador de futebol Dodói (Douglas Silva), que passou 12 anos preso.

Abraço Infinito, hit da pequena Samantha (Fonte: Netflix Brasil / Youtube)

Muito tem se falado – nas críticas, principalmente – sobre Samantha! ser uma sitcom politicamente incorreta. Isso com certeza varia de acordo com a definição de politicamente incorreto adotada por cada pessoa, mas parece injusto classificar a produção assim se levarmos em conta que, em nenhum momento, ela soa desrespeitosa. Muito pelo contrário, o sub-texto – atualizado, responsável e até dramático – de Samantha! é realmente impressionante.

Claro que o comportamento de uma mulher que parece disposta às maiores trapalhadas para conseguir seu retorno ao espetáculo brasileiro pode soar um tanto quanto inadequado. Mas é aí que moram as qualidades da série. Ela não é óbvia. O roteiro joga com o correto e o incorreto o tempo todo, levantando questões absolutamente relevantes sem se tornar pesado ou explícito. Ele joga a isca e depois, sutilmente, eleva a discussão.

Tomemos a relação mãe e filha como exemplo. Em um dos episódios, a protagonista acha um absurdo não fazer o papel da “gostosa” num comercial de cerveja com o marido. Então, sua filha, Cindy (a excelente Sabrina Nonato), lhe fala sobre como a indústria rivaliza o estereótipo da “gostosa” com o da “dona de casa” para perpetuar padrões que vendem e que acabam causando competitividade feminina. Logo em seguida, Samantha aproveita o discurso da filha para convencer a atriz que faria a “gostosa” a desistir, deixando o papel para ela.

Imagem: divulgação

A princípio, a situação pode soar como um simples desvio de caráter de Samantha, mas, se analisarmos mais a fundo, podemos perceber uma certa cutucada no comportamento de pessoas que usam o discurso feminista apenas em benefício próprio. Assim, Cindy e Samantha, juntas, funcionam como uma balança em equilíbrio e estabelecem diálogos importantes.

Aliás, precisamos falar sobre os personagens infantis, Cindy e Brian (Cauã Gonçalves). Eles são parte fundamental na dinâmica familiar proposta pela série e funcionam como contraponto essencial aos pais. Cindy é engajada, ao contrário da mãe que (na maioria das vezes) só pensa em si mesma. E Brian é um nerd que odeia futebol, para a tristeza do pai.

As crianças são espertas, ousadas e inteligentes. Cada um à sua maneira, sem estereótipos tolos. Cindy até faz lembrar um pouco a personagem Elena, de One Day at a Time. Ambas estão descobrindo suas militâncias, sua personalidade e ocupam o papel de críticas em suas narrativas. São garotas especiais e engraçadíssimas (quem nunca se empolgou demais com a própria militância e passou uma vergonha como Cindy e Elena que atire a primeira pedra).

Imagem: divulgação

Se tentássemos resumir Samantha! em poucas palavras, seria possível dizer que trata-se da mais pura essência do imaginário popular brasileiro, só que repaginado. O casamento de Samantha e Dodói muito tem a ver com nosso imaginário conectado à televisão e ao futebol; afinal, somos o país do futebol, da novela e dos programas de auditório.

O cômico, no entanto, é que, além de resgatar essas figuras e  hábitos culturais de massa, Samantha! vai mais longe e atualiza nosso status: somos também o país dos memes. Rimos de nós mesmos ao melhor estilo violinistas tocando enquanto o Titanic afunda. Daí a presença da brincadeira com a mensagem satânica no CD que é ouvido ao contrário, a participação de Gretchen e uma versão do bordão de Susana Vieira na frase “O que é uma Samantha contra 130 milhões de brasileiros que me amam?”.

Isso tudo colabora para que a comédia seja tão divertida e próxima. Ela ri de si mesma, ri de todas as piadas prontas do espetáculo brasileiro, nos faz lembrar do quanto é bizarro ter crianças divas mirins no entretenimento e ainda consegue agregar demandas atuais com humor elegante e eficiente. Perspicaz, a série conquista o público através da afetividade para, depois (ou durante), entregar algo mais consistente.

E, se por um lado a brasilidade da nova série da Netflix transborda, por outro ela também parece bem acessível aos outros mais de 180 países em que está disponível. Apesar de ter elementos tão nossos, a obra não deixa de ser uma sitcom com conflitos familiares e até linguagem da internet. Ou seja, o diálogo com o público internacional está garantido.

Samantha (Emanuelle Araújo) / Divulgação

Considerando o cenário do audiovisual de massa brasileiro, Samantha! também contraria todas as grandes comédias nacionais que fizeram números estrondosos de bilheteria às custas de mulheres “loucas pra casar” ou “lindas de morrer”. Emanuelle Araújo consegue entregar uma protagonista que não quer ser apenas linda, bem casada ou famosa, como pode parecer. Essa personagem tem uma profundidade muito rica. Ela fala sobre insegurança, medos, maternidade, solidão, sucesso, memória.

Por vezes, apenas a interpretação nos olhos de Araújo é suficiente para dizer inúmeras coisas. Samantha tinha tudo para ser uma personagem non grata, mas quem consegue passar pelos sete episódios sem amá-la?

Em 2010, o documentarista brasileiro Eduardo Coutinho lançou o filme Um Dia Na Vida, o qual consiste em um resumo de tudo que foi transmitido na TV aberta durante 24 horas. Ele gravou desde intervalos comerciais até programas infantis, editou e montou seu documentário. A obra, no mínimo chocante, é um belo registro do quão tóxica a televisão aberta pode ser.

Agora, oito anos depois de Um Dia Na Vida, a Netflix lança uma série de entretenimento que, de certa forma, reconhece essa toxicidade e tenta registrá-la e ressignificá-la. Não sabemos o que nos espera nas próximas temporadas, mas a primeira definitivamente resultou em uma grata surpresa.

Trailer:

(Fonte: Netflix Brasil / YouTube)

Ficha técnica

Criação: Felipe Braga

País: Brasil

Ano: 2018

Elenco: Emanuelle Araújo, Douglas Silva, Sabrina Nonato, Cauã Gonçalves

Gênero: Comédia

Distribuição: Netflix

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