[Crítica] O Vazio do Domingo: uma representação brutalmente poética da maternidade

O lugar que a Netflix ocupa hoje no cinema mundial, como serviço de streaming, é uma discussão que abrange várias frentes e vai longe. Uma das características inegáveis da empresa, entretanto, é o fato de que ela tem atuado quase que como  socorrista de projetos “em perigo”.

Às vezes a plataforma sai ao resgate de produções que poderiam deixar muitos fãs desconsolados – e que representam, portanto, clientes em potencial -, como foi o caso recente da série Lúcifer, cancelada pela Fox . Outras vezes, ela coloca dinheiro em obras que não teriam como sair do papel sem sua ajuda, como aconteceu com o longa espanhol O Vazio do Domingo (La Enfermedad del Domingo).

Imagem: divulgação

De acordo com entrevistas do diretor e roteirista Ramón Salazar, rodar este novo filme só foi possível graças a entrada financeira da Netflix no projeto. Assim, o longa estreou nos cinemas espanhóis no final de fevereiro e foi lançado mundialmente como “produção original Netflix” no último dia 15.

Aqui estamos falando, sem dúvidas, de um resgate que valeu a pena. Seria injusto classificar O Vazio do Domingo como um filme de arte “apenas”, sob o risco de lhe fadar ao estereótipo de filme europeu difícil, espantando a audiência. Por outro lado, seria injusto também não lhe conferir o título de obra prima do cinema espanhol contemporâneo. Talvez o ideal então seja dizer: é um  belíssimo filme, está disponível na Netflix e é imperdível.

A sinopse é sucinta. Sem querer revelar muito, se limita a dizer que trata-se de uma história sobre relação mãe e filha. Chiara (Bárbara Lennie) foi abandonada pela mãe, Anabel (Susi Sánchez), ainda criança, há mais de 30 anos.  Um dia, ela decide procurar por Anabel, lhe propondo algo inusitado: que as duas passem 10 dias juntas, em um lugar afastado.

Deste ponto em diante, o filme acompanha o processo catártico do reencontro de duas mulheres com um rompimento em comum, mas com passados e presentes desligados há décadas.

Anabel (Susi Sánchez) e Chiara (Bárbara Lennie) / Divulgação

Os dois primeiros atos de O Vazio do Domingo se dedicam a implantar dúvidas: que tipo de pessoa é Chiara? O que ela realmente quer da mãe? Por que Anabel aceitou essa proposta estranha? Ela quer se livrar da filha e enterrar de uma vez seu passado ou reatar laços? Depois, o que vemos no terceiro ato é inesperado, emocional e impressionante.

Salazar não poupou alegorias para abordar, com originalidade e complexidade, conflitos que não dizem respeito apenas a mãe e filha como núcleo familiar despedaçado. Pelo contrário, o diretor destrincha, com sensibilidade e prudência, duas mulheres, como seres individuais. As protagonistas, interpretadas de forma arrebatadora por atrizes formidáveis, carregam consigo todas as fragilidades e aspirações de vidas que foram unidas pela natureza, mas separadas por razões outras.

Logo no início do filme, por exemplo, há uma cena onde Chiara anda, sozinha, por uma floresta e encontra um tipo de gruta. Ali, é como se a personagem retornasse à sua origem, à natureza feminina que a originou. Alguns minutos depois, ela reencontra a mãe num lugar que parece ser mais urbano, distante, menos íntimo e familiar.

Chiara (Bárbara Lennie) encontrando a gruta no início do filme / Divulgação

A trama se aventura com fluidez por momentos que beiram o suspense e o thriller psicológico. Gêneros que, em conjunto com a fotografia extraordinária – composta principalmente por tons sóbrios e quentes, como o azul petróleo,  verde musgo, cinza e o marrom madeira – e com os enquadramentos irretocáveis, ajudam a construir a atmosfera de incertezas do longa.

Em composição, esses elementos visuais, alegóricos e de gêneros que vão além do drama, refletem diretamente o engessamento da relação das protagonistas, ao mesmo tempo em que esmiúçam detalhes de sentimentos emaranhados, represados e delicadamente transbordantes. Eles simbolizam a exata oposição entre intensidade e distância.

O Vazio do Domingo é, portanto, visceral e sensível. Narrativamente consistente e visualmente deslumbrante. O cinema com certeza já tratou de conflitos entre mãe e filha várias vezes, mas é bem provável que a maternidade nunca tenha sido abordada de forma tão brutalmente poética.

 

Ficha técnica

Ano: 2018

Duração: 1h53

Direção: Ramón Salazar

Elenco: Bárbara Lennie, Susi Sánchez, Miguel Angel Sola

Gênero: Drama

Distribuição: Netflix

País: Espanha

 

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