De acordo com dados, mulheres são destinadas a dirigirem filmes de menor orçamento

Há alguns anos, felizmente, o assunto cinema e mulheres na direção tem rendido boas discussões. Em 2016, Anna Muylaert fez barulho no cinema nacional com seu filme Que Horas Ela Volta?, e também com seu posicionamento de enfrentamento perante os entraves que a indústria cinematográfica coloca no caminho de profissionais femininas. Já em 2017, Patty Jenkins entrou para a história como a primeira mulher a dirigir um filme de super-herói. Além disso, a diretora também contou com um grande orçamento – raramente destinado a mulheres – para fazer o seu Mulher-Maravilha. Antes dela, apenas Kathryn Bigelow havia trabalhado com uma verba acima de 100 milhões de dólares.

‘Que horas ela volta?’ / Divulgação

No Brasil, Muylaert já vinha usando debates e exibições de seu filme para discutir como as mulheres são sempre obrigadas a provarem uma maior qualificação, antes de conseguirem trabalhos no cinema, e como as produções com grandes orçamentos são sempre “naturalmente” destinadas a homens. Tal dinâmica funciona como se dinheiro fosse automaticamente sinônimo de direção masculina. Por isso, Jenkins ter conseguido fazer um filme tão grandioso de uma super-heroína serviu para levantar o debate acerca dessas questões a nível mundial.

Anna Muylaert (Foto: Farrucini) e Patty Jenkins (Foto: Steve Granitz/WireImage)

Fazer filmes de ficção custa muito caro e, se a indústria não coloca dinheiro na mão das mulheres, por sempre pensarem primeiro em nomes masculinos, fica complicado que elas mostrem seu trabalho para o grande público. Dessa dinâmica, surge a necessidade do maior envolvimento de mulheres com produções de menor orçamento – como os filmes independentes ou os documentários. Essa realidade não seria ruim se acontecesse por opção, mas parece ser trajeto determinado quando o assunto é mulher e cinema.

Em 2014, a New York Film Academy divulgou um infográfico cujos dados, analisando os 500 filmes mais vistos no período entre 2007 e 2012, revelavam que, apesar de mulheres serem responsáveis por comprarem metade dos ingressos vendidos nos EUA, elas ainda estão pouco presentes atrás das câmeras – além de dirigirem mais documentários (34.5%) do que ficções (16.9%). No Brasil, o boletim “Raça e gênero no cinema brasileiro”, do Instituto GEMAA, revela que, entre os anos de 1970 e 2016, os filmes com grande público (acima de 500.000 espectadores) foram predominantemente dirigidos por homens (98%). Um diretor não-branco sequer foi identificado, assim como, entre os 2% de diretoras mulheres, nenhuma é negra.

O anuário da Ancine de 2016 ainda indica que, no Brasil, apenas 20.4% dos títulos lançados no cinema foram dirigidos por mulheres. Além disso, em 2015, o percentual de público dos lançamentos de filmes feitos por diretoras era de 27.7%, número que caiu para 8.8% em 2016. Dos 20,4 % dos títulos lançados e dirigidos por mulheres, 48.3% eram documentários. Enquanto que, dos 78.2% dos títulos dirigidos por homens, apenas 25.2% eram documentários.

Todos esses dados expõem condições que há muito tempo são naturalizadas no meio cinematográfico. O cinema ainda é um cenário no qual os homens carregam consigo o poder econômico e ideológico. Claro que nem toda diretora mulher quer dirigir um filme milionário, mas é necessário que mulheres passem a também serem uma opção de escolha dos grandes estúdios. Talvez, as movimentações dos últimos anos tenham acarretado nos primeiros passos rumo a uma nova realidade, nesse sentido. Aguardemos por mais casos de sucesso como o de Mulher-Maravilha.

 

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