Aruanas: o futuro depende do feminismo e do ativismo ecológico

“Quem gosta de floresta é índio e celebridade. O povo gosta é de dinheiro, e dinheiro não vai faltar”. Isso é dito pelo empresário Miguel (Luiz Carlos Vasconcellos) na série Aruanas, mas poderia perfeitamente ter sido dito pelo atual presidente do Brasil.

Escrita por Estela Renner e Marcos Nisti, a série, uma coprodução entre Globo e Maria Farinha Filmes, é fruto de parcerias com organizações como o Greenpeace e a Anistia Internacional. Seu objetivo: colaborar com o alerta internacional sobre a crise ambiental, principalmente no Brasil, e valorizar o trabalho de ativistas.

A produção tem estreia prevista em mais de 150 países graças ao apoio de ONGs de todo o mundo. No Brasil, o primeiro episódio foi ao ar na última quarta-feira (3) na TV aberta e a série está inteiramente disponível para os assinantes da Globoplay.

O ENREDO

Na trama, a ONG de proteção ambiental Aruana é comandada por três amigas: Luiza (Leandra Leal), uma ativista ambiental; Natalie (Débora Falabella), jornalista; e Verônica (Taís Araújo), advogada. 

Quando Luiza recebe informações anônimas sobre possíveis crimes ambientais de uma das maiores mineradoras do país, a KM, um grupo da Aruana começa a investigar as atividades da empresa no estado do Amazonas. Junta-se a eles a estagiária Clara (Thainá Duarte), que chega em São Paulo, onde fica a sede da ONG, para conseguir um emprego longe do ex-namorado abusivo. 

‘Aruanas’/ Divulgação

Aruanas é uma série completa e versátil porque consegue se articular por diversas frentes. Cabe a Natalie, por exemplo, tratar da postura da mídia tradicional diante de denúncias de atividades ilegais e crimes de grandes empresas contra o meio ambiente. Enquanto isso, fica a cargo de Verônica expor como funciona a justiça e política institucional, as corrupções e os conflitos de interesse que circulam por Brasília. Já Luiza é a representação de como é perigoso ser ativista no Brasil.

Miguel, dono da KM, reproduz os comportamentos de membro das elites locais que dominam os interiores e as florestas do Brasil. “Escondidos” nos rincões do país, esses homens sentem-se intocáveis pela Constituição. São os poderosos de terras sem lei. Publicamente se passam por empresários filantropos, pró-desenvolvimento e geração de emprego. São, no entanto, agentes da selvageria do capitalismo. 

Possuem as mãos manchadas de sangue e mercúrio e geram apenas trabalhos degradantes. Ficam com parte da riqueza natural do país e enviam o resto para fora, para manter o capital financeiro internacional circulando à custa de trabalhadores explorados, degradação da natureza, chacinas de povos originários da floresta e assassinatos de opositores.

DISPUTA DE NARRATIVA E LINGUAGEM

Não havia momento mais apropriado para o lançamento de Aruanas. Dois Brasis disputam narrativa tanto na série como no Brasil 2019: o Brasil da resistência, da luta dos povos marginalizados, e o da violência do capital e do Estado. 

Quando Bolsonaro e os grupos de poder por ele representados chegaram à Presidência da República, as contradições de um país que ainda acredita ser viável basear a ideia  de progresso no avanço desenfreado do extrativismo e do agronegócio vieram à tona como nunca antes. 

Imagem: divulgação

O que Aruanas faz é aproveitar o momento para esmiuçar, em meio a conflitos de relacionamento típicos das novelas, e, portanto, de forma descomplicada e envolvente, assuntos espinhosos como assassinatos de ativistas, contaminação da terra e da água, mercado clandestino, prostituição infantil, pirataria e genocídio indígena. A certa altura, a produção aponta até para o problema do paternalismo de membros de ONGs que lidam com pessoas vulneráveis socialmente.

Repleta de cenas de ação e aventura e conduzida ao ritmo de canções de importantes nomes da música brasileira, a série possui fôlego e carga dramática suficientes para envolver a audiência noturna da maior emissora de TV aberta do país sem tornar-se leviana ou pouco crítica – é possível que em breve a Rede Globo exiba a série completa em sua grade de programação, como fez com Assédio e Se Eu Fechar os Olhos Agora.

Disputar narrativa tem a ver com capacidade de comunicação, afinal. Para quem tem contato com os temas abordados, Aruanas pode parecer óbvia; mas esse tipo de material, acessível e cuidadoso, é ponte importante de diálogo com a massa da população que consome TV e não está habituada a ver esse Brasil que acontece longe dos olhos das produções audiovisuais do eixo Rio-SP.

PROTAGONISMO FEMININO PARA ALÉM DO IDENTITARISMO

Além da presença de mulheres nas partes técnicas e criativas da série, o conjunto de quatro protagonistas forma o eixo central da narrativa; não pela simples moda de colocar mulheres diversas como protagonistas, mas porque mulheres são as protagonistas dos movimentos internacionais que tentam contornar a catástrofe climática.

Alexandria Ocasio-Cortez despontou na política norte-americana por abordar pautas ambientais em campanha. Greta Thunberg, uma adolescente sueca de 16 anos, tornou-se o rosto da juventude que luta pela possibilidade de futuro quando deu início ao Fridays for Future, um movimento internacional de greves estudantis que exigem posicionamentos dos governos sobre a crise climática.

Imagem: divulgação

As protagonistas diversas de Aruanas, interpretadas por atrizes brilhantes, são reflexo dessas movimentações globais. Elas não estão ali por acaso. Não são perfeitas, mas são obstinadas. São seres humanos em contínuo processo de formação –  e isso é essencial. 

Ao colocar mulheres com conflitos pessoais – como a maternidade – para lidarem com conflitos coletivos, a série reivindica a complexidade do viver em sociedade. Até mesmo as mulheres do elenco de apoio são fundamentais nessa construção múltipla de classes sociais, raças, regionalidades.

Aruanas apela ao entretenimento, claro; mas não por isso a obra deixa de apontar para a necessidade de mudanças profundas, estruturais e urgentes. Mudanças políticas, econômicas e culturais. Assim, ao longo dos 10 episódios fica fácil perceber que violência de gênero,  mercado financeiro internacional, destruição ambiental, precarização do trabalho e matança dos povos originários são fatores que se retroalimentam.

O progresso proposto por Miguel é o progresso que durante toda a nossa história pós-colonização beneficiou exclusivamente o homem branco, hétero, cis, da elite. É o progresso que desenvolve as desigualdades. Os recursos naturais, porém, são limitados. A longo prazo não haverá mais o que explorar em nome desse tipo de progresso.

POR QUE FALAR DA AMAZÔNIA?

Em ‘As Veias Abertas da América Latina’, Galeano escreveu: “Nossa riqueza sempre gerou nossa pobreza por nutrir a prosperidade alheia: os impérios e seus beleguins nativos. Na alquimia colonial e neocolonial o ouro se transfigura em sucata, os alimentos em veneno”. “O bem-estar de nossas classes dominantes – dominantes para dentro, dominadas de fora – é a maldição de nossas multidões, condenadas a uma vida de bestas de carga”.

Imagem: divulgação

A exploração dos recursos naturais latino-americanos não cessa desde a colonização, quando passou a servir de base para o desenvolvimento do capitalismo do “primeiro mundo”.  O Brasil figura como peça fundamental desses processos por conta do tamanho de seu território e pela diversidade natural que abriga.

Hoje, Minas Gerais, por exemplo, está completamente à mercê das mineradoras. Sua riqueza de minérios é também a maldição que despertou o interesse do extrativismo e provocou as tragédias anunciadas de Mariana e Brumadinho; desastres que causaram perdas ambientais e humanas inestimáveis e irreparáveis.  Mas por que, com o estado de Minas afundado em lama e dejetos, Aruanas escolhe falar da Amazônia?

A resposta é simples: a Amazônia é  responsável por até 20% do oxigênio da Terra, pela armazenagem de emissões de carbono e pela absorção de parte importante do calor solar. Um quinto da água doce do mundo passa pela floresta amazônica. Em outras palavras: a Amazônia é peça-chave para impedir a catástrofe climática e, portanto, tem apelo internacional. Talvez só índios e celebridades gostem da floresta, como diz o personagem Miguel, mas todas as pessoas do mundo dependem do bem-estar dela para sobreviver. Aruanas pretende, então, discutir o valor que atribuímos aos bens comuns – ou ao que deveria ser bem comum.

O ALERTA

É preciso conversar com a comunidade. Como Aruanas retrata bem, parte significativa do povo brasileiro depende dos empregos – formais ou informais – gerados pelo garimpo, pela agropecuária ou pelo extrativismo.  O problema é que essa é uma economia fadada ao fracasso.

De acordo com dados do boletim Imazon, em janeiro de 2019 foi detectado, em relação ao mesmo período do ano passado,  um aumento de 54% no desmatamento da Amazônia Legal. Estamos dando as costas, enquanto nação, para o caminho que deveria ser trilhado rumo ao futuro. 

Tweet de Carlos Bolsonaro, filho do presidente.

Embora os filhos de Bolsonaro gostem de usar as redes sociais para caçoar do aquecimento global, ativistas e povos da floresta seguem arriscando as próprias vidas e enfrentando as guerras internas de poder do país em completa desvantagem de forças para lutar pela sobrevivência da espécie humana.

Eles se articulam internacionalmente, tentam criar redes de defesa do planeta e das futuras gerações e estão dispostos a compartilhar conhecimento. Entretanto, não podem com tudo sozinhos. Essa é uma batalha que acontece sob os desmandos de um governo que estimula violência sobre minorias sociais. Antes de mais nada, e principalmente agora, essas pessoas precisam estar vivas. Cabe a todos nós, então, o estado permanente de alerta. 

Daí a importância de Aruanas provocar e tornar acessível diálogos que costumam terminar sempre nos mesmos lugares. Talvez os principais acertos da produção sejam, no final das contas, mostrar que os regionalismos brasileiros pertencem a um contexto global de economia e política; e que, acima de tudo, os interesses indígenas são – ou deveriam ser- os de toda a população.

Trailer:

Ficha técnica

Direção Geral: Estela Renner

País: Brasil

Ano: 2019

Elenco: Leandra Leal, Taís Araújo, Débora Falabella, Thainá Duarte, Camila Pitanga

Gênero: Drama, Ação

Distribuição: Globoplay

COMENTÁRIOS

2 comentários em “Aruanas: o futuro depende do feminismo e do ativismo ecológico”

    1. Obrigada pelo comentário e pela série, Estela!
      Assistir Aruanas foi uma grata surpresa. Tomara que esse material possa alcançar muita gente!

      Beijos

      Vanessa Panerari

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