Eugênia: os desafios contemporâneos da mulher boliviana branca e de classe média

A história de Eugênia, interpretada por Andrea Camponovo, representa o contexto contemporâneo de inúmeras mulheres latino-americanas de classe média. Insatisfeita com seu casamento problemático, a personagem-título do mais recente trabalho do diretor boliviano Martín Boulocq decide separar-se e mudar de vida. Ela então vai para outra cidade, onde o pai vive com uma nova família, arruma um emprego temporário como maquiadora, começa a estudar gastronomia e até aceita interpretar uma espiã guerrilheira num filme amador.

‘Eugênia”/ Divulgação

Recusando o conceito de começar do zero, Eugênia pretende simplesmente seguir em frente. O caminho, porém, é enredado. Em preto e branco e trabalhando com sobreposições de situações, Boulocq contrapõe as aspirações da protagonistas com os micromachismos que limitam ou incomodam seu cotidiano. Conforme lida com as tais mudanças de sua vida, Eugênia passa por transformações íntimas; assim, ela vai lentamente assumindo outras posturas e começando a abandonar inseguranças.

É partindo das experiências específicas da personagem, portanto, que o diretor procura tratar da condição feminina na Bolívia – falando especialmente de mulheres brancas e de classe média; que mesmo tendo acesso a muitas coisas ainda são submetidas a comportamentos que evidenciam como se dá, nos pormenores, as relações hierárquicas de gênero.

EUGÊNIA E A BOLÍVIA

Realizado antes do golpe sofrido pelo presidente Evo Morales, em 2019, Eugênia já captava a polarização das ruas das Bolívia. Uns, como o pai ex-guerrilheiro da protagonista, votando no MAS (Movimento ao Socialismo) apesar da insatisfação com o modelo reformista de governança adotado pelo partido; já a oposição, irritada com a liderança personalista do presidente.  De um lado, um país prestes a cair nas garras do conservadorismo político. Do outro, uma protagonista procurando emancipação pessoal. Ambos em constante movimento de busca.

Imagem: divulgação

Tematicamente relevante, o filme se apresenta tanto como registro de seu tempo quanto como exercício de linguagem do diretor. E embora possa soar pouco empolgante por deixar a narrativa acompanhar o intrincado ritmo dos acontecimentos da vida da protagonista, a produção se destaca particularmente pela autenticidade e imprevisibilidade de Eugênia; uma mulher que não vive outros grandes feitos além da já muito complicada tarefa de ser mulher nesse mundo.

Depois de fazer sua estreia mundial na 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o longa não passou pelos cinemas brasileiros. Só agora, pouco mais de dois anos depois, ele está disponível para compra e aluguel nas plataformas digitais. Também é possível assistir a Eugênia gratuitamente até abril, na Spcine Play.

Leia também: “O Despertar das Formigas e as revoluções internas das mulheres”

Ficha Técnica:

Direção: Martín Boulocq

Duração: 1h22

País: Bolívia

Ano: 2017

Elenco: Alejandra Lanza, Alvaro Eid,  Andrea Camponovo, Ricardo Gumucio, Simón Peña

Gênero: Drama

Distribuição: —

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