3 filmes recentes sobre romances nada convencionais

Que o cinema está cheio de filmes bobos de romance todos sabemos. Os títulos com a palavra “amor” são tantos que é muito fácil nos confundirmos. E, ainda pior, a repetição de histórias machistas, sem sentido ou forçadas é muito recorrente na sétima arte. Produções românticas e de enredos interessantes raramente são lembradas e, por isso, o gênero de filmes encontra-se bastante defasado. Pensando nisso, selecionamos três romances dos últimos tempos com narrativas nada convencionais e casais incomuns para o cinema.

 

1. ME CHAME PELO SEU NOME (2017)

De Luca Guadagnino, o longa-metragem indicado ao Oscar de Melhor Filme deste ano conta a história de amor entre dois jovens. No verão de 1983, os pais de Elio (Timothée Chalamet), um professor e sua esposa, recebem em sua casa, na Itália, a visita de Oliver (Armie Hammer) – um universitário norte-americano. É a partir daí que os estudantes nutrem uma paixão avassaladora.

O mais interessante do filme é a naturalidade com a qual Elio e Oliver se interessam um pelo outro, apesar da época e de todos os empecilhos sociais impostos ao romance. Graças à mente aberta dos pais do colegial (intelectuais totalmente dispostos ao diálogo familiar), seu filho permite-se apaixonar pelo intercambista americano sem medo. Elio tem uma sexualidade bastante fluida – sendo, talvez, bissexual –, e sua jovialidade e olhar não-discriminatório auxiliam na compreensão dos próprios sentimentos.

Imagem: divulgação

Já Oliver, filho de pais conservadores, manifesta maiores receios quanto à relação com o jovem poliglota (Elio fala três línguas). Mas, isso fica evidente somente à medida em que o sentimento entre ambos exige um comportamento mais sério. Antes disso, no entanto, Oliver não tem medo de se aproximar do menino; fazendo, até mesmo, questão de tocá-lo para deixar claras as suas intenções.

O romance entre os dois é abraçado por paisagens italianas naturais, por praticamente todos os que os conhecem e por uma trilha sonora inconfundível. No decorrer do filme, percebemo-nos também apaixonados por cada um dos jovens. Tanto Elio quanto Oliver apresentam qualidades fascinantes, e isso contribui para o clima agradável de Me Chame Pelo Seu Nome.

Apesar da aceitação do relacionamento por aqueles que os cercam, não nos esqueçamos de que, em plena década de 80, a homossexualidade era vista com maus olhos, ainda mais do que nos dias de hoje. Portanto, a repreensão, mesmo que fantasma, está sempre acompanhando os protagonistas de longe. O longa levou o Oscar de Roteiro Adaptado e está disponível no Net Now.

(Fonte: YouTube / Sony Pictures Brasil)

 

2. EU NÃO SOU UM HOMEM FÁCIL (2018)

Da diretora e roteirista Eléonore Pourriat, Eu Não Sou Um Homem Fácil é uma comédia de drama sobre a desigualdade de gênero. Focado, principalmente, no entendimento e na possível empatia do espectador para com o feminismo, a produção mostra o desenvolvimento do relacionamento entre Damien (Vincent Elbaz) e Alexandra (Marie-Sophie Ferdane). Assim, o longa-metragem encontra um ótimo caminho para ilustrar questões tão banalizadas que entendê-las requer um certo esforço do senso comum.

Depois que Damien sofre um acidente, o machista incorrigível desperta em um mundo invertido, no qual as mulheres são as opressoras dos homens. Inicialmente confuso, o protagonista, aos poucos, vai se habituando a pertencer ao sexo oprimido, passando por todo tipo de assédio e segregação política.

Imagem: divulgação

Na História da nova realidade, a força psicológica fora atrelada ao corpo feminino que engravida e pare seres humanos. Portanto, enquanto que conceitos como inteligência e sexualidade são características femininas, ao homem coube o papel de cuidador doméstico e objeto sexual. Como exemplo, Alexandra se equivale a tudo aquilo que Damien era antes de bater a cabeça: um predador, totalmente à vontade em sua posição social. E ele, oprimido pelas mulheres, é julgado por ainda ser solteiro e se relacionar com várias pessoas.

A desigualdade entre o casal não deixa de ser muito diferente de relacionamentos heterossexuais da vida real. Alexandra facilmente é lida como o “macho escroto” que nos é tão familiar e que se aproveita de estereótipos de gênero em benefício próprio. E Damien, enquanto briga para ser respeitado em sua – nova – posição, lembra uma feminista amadurecida por suas condições.

O feminismo, aliás, é tido como “masculismo” em Eu Não Sou Um Homem Fácil, com manifestações pela exposição do mamilo masculino e direitos iguais. A partir disso, a história de amor da mulher babaca que se redime com o masculismo do parceiro nunca fizera tanto sentido. Um romance cheio de estereótipos – mas do avesso e repleto de responsabilidade social. Disponível na Netflix.

Trailer legendado em inglês:

(Fonte: YouTube / Netflix)

 

3. AMOR (2012)

Vencedor da estatueta de Filme Estrangeiro em 2013, Amor traz um casal raríssimas vezes retratado em telas: um homem e uma mulher idosos. Depois de Anne (Emmanuelle Riva) manifestar os primeiros sinais de uma doença degenerativa – algo infelizmente comum na terceira idade –, seu marido Georges (Jean-Louis Trintignant), que vive sozinho com ela, passa de parceiro a cuidador.

O silêncio do filme é devastador, à medida em que a doença de Anne avança e a tristeza toma conta da história. Ao mesmo tempo em que acompanhamos o sofrimento do velho casal, presenciamos as mais altas demonstrações de amor; um sentimento puro, que implica cuidado, atenção e compreensão extrema. É muito complicado ter de lidar com as imperfeições de um corpo envelhecido, e o longa de Michael Haneke expõe isso através de uma crueza que beira a “maldade”.

Imagem: divulgação

Enxergar Anne e Georges dessa forma não é nem um pouco contemplativo. Suas rugas e cabelos brancos não são fofos, e o forte laço que os une não é simplesmente romântico – mas, sim, de uma beleza realista: nada expositiva e totalmente simbólica. A situação do casal claramente passa longe daquilo que idealizamos para o final de nossas vidas. Mas, é preciso reconhecer que chegar a essa idade podendo contar com alguém, como Anne conta com Georges, é de uma preciosidade sem igual.

Amor eleva a palavra que dá o título às suas últimas consequências: não extremadas pelo exagero narrativo, mas por causa da realidade cruel a que é submetido. Qual seria o limite de uma prova de amor? Contrariando as expectativas romantizadas, talvez, seja mesmo ter de cuidar de um(a) parceiro(a) durante a velhice. E não há nada de errado nisso. Disponível no Net Now.

(Fonte: YouTube / imovision)

 

COMENTÁRIOS

Deixe uma resposta