História de um Casamento e a interrupção do amor

Líder de indicações ao Globo de Ouro 2020, História de um Casamento estreou na Netflix na última sexta-feira (06). O novo filme de Noah Baumbach (Frances Ha), sobre o divórcio de um casal de classe média, é muito mais do que um mero Romance dramático. Com seis nomeações à premiação que antecede o Oscar, a produção concorre pelas categorias de Melhor Filme de Drama; Atriz e Ator em Drama, para Scarlett Johansson e Adam Driver, respectivamente; Atriz Coadjuvante, para Laura Dern; Roteiro, e Trilha Sonora Original.

Charlie (Driver), um diretor de teatro experimental, e Nicole (Johansson), uma atriz que faz sucesso no cinema comercial, acabam de entrar em um conturbado processo de divórcio. Ao decidir consultar-se com a bem-sucedida advogada Nora Fanshaw (Dern), Nicole contraria o acordo verbal feito com seu ex-marido – de que ambos resolveriam as questões legais sem o envolvimento de terceiros – e, então, inicia-se uma rixa enredada dentre as duas partes.

Nicole (Johansson), Charlie (Driver) e o filho Henry (Azhy Robertson) entre eles / Divulgação

Errantes em conjunto

O fim de um relacionamento é sempre triste. Independentemente dos motivos para o término, é difícil constatar que uma relação romântica – que um dia nutriu afetividade e esperança de um futuro melhor – acabou. Por causa da complexidade e da normalidade dessa questão, assim como de qualquer outra que aborde envolvimentos amorosos, é que existe tanto material artístico a respeito do assunto.

As últimas décadas do Cinema, principalmente as do norte-americano, estão marcadas por Comédias Românticas apelativas e regadas de arquétipos sociais; ou, até mesmo, sexistas. Por isso, é importante enaltecer produções do gênero de Romance que quebrem com essa lógica clichê e que contem histórias de amor realistas. Esse, com certeza, é o caso de História de um Casamento.

Além das motivações verossímeis de Nicole para pedir o divórcio, ela, assim como Charlie, erram em conjunto – e pelo simples fato de serem humanos. Afastamento, traição e mágoa são causas bastante plausíveis para o rompimento de uma relação. E, por estar profundamente chateada com o rumo das coisas, Nicole pede a guarda total do único filho do casal. A partir daí, fica um relevante questionamento para o espectador do filme: quem estaria menos errado, Charlie ou Nicole?

De qualquer modo, História de um Casamento não julga os seus protagonistas. Longe de ser um longa-metragem simplista, que se aproveita de uma possível “guerra dos sexos” para falar sobre o término de um relacionamento, a obra de Baumbach é um desabafo sobre o amor; o amor verdadeiro, não aquele romantizado e utópico com o qual nos deparamos muitas vezes.

Nora (Dern) e Nicole / Divulgação

O amor, incontrolável, resiste desde sempre

Apesar de ser uma mulher forte, independente e moderna, Nicole erra – em mais de um momento. E, isso é um ponto essencial da produção, uma vez que humanizar personagens já interessantes torna-os ainda melhores. Portanto, Charlie, antes de ser um homem somente machista e tóxico, tem tantas camadas que seria desonesto resumi-lo a isso. Ele ama incondicionalmente o filho e a ex-esposa, tal como vibra por suas conquistas individuais.

De fato, o amor, incontrolável, resiste desde sempre. Mesmo após o fim, em meio às burocracias de separação, o casal de protagonistas continua apaixonado e, no fundo, sabe dos sentimentos do outro. Para transmitir tanta veracidade, Baumbach apoia-se em acontecimentos pessoais; o que deixa tudo extremamente sensível. Os monólogos de Nicole e Charlie, os diálogos de desabafo com os advogados de divórcio e, principalmente, dentre si são emocionantes.

A câmera aproximada, e tão obcecada pelos personagens que os acompanha durante toda uma cena, auxilia no magnetismo do filme. Logo, assistir a uma narrativa sobre o amor – porque, acima de tudo, as mais de duas horas de História de um Casamento são sobre isso – é uma experiência familiar, mas amadurecida. Talvez, a alta qualidade da obra eleve a demanda por longas românticos de caráter autoral e/ou com figuras aprofundadas.

No fim das contas, a produção original da Netflix representa mais do que a liderança de indicações em uma premiação. Ter uma obra como a de Baumbach no catálogo da maior plataforma de streaming do mundo é um sinal de que o amor merece uma retratação digna de sua multiplicidade.

Imagem: divulgação

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Ficha técnica

Direção: Noah Baumbach

Duração: 2h17

País: EUA

Ano: 2019

Elenco: Scarlett Johansson, Adam Driver, Laura Dern, Alan Alda

Gênero: Romance, Drama, Comédia

Distribuição: Netflix

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