Estreia: Madame, segundo filme da francesa Amanda Sthers

Optar por realizar um filme de comédia “escrachada” e caricatural sobre alguma questão social é sempre complicado. Facilmente a crítica pode se tornar ofensa e causar o efeito contrário ao desejado. Esse tipo de abordagem exige sensibilidade e tato em relação às escolhas feitas pela direção e roteiro.  A linha que separa humor ácido e crítico de ofensas, às vezes, pode ser tênue, mas, quando bem explorada, torna-se uma grata surpresa. Esse é o caso da comédia francesa Madame, da diretora e roteirista Amanda Sthers.

Recém chegados a Paris, o casal americano Anne (Toni Collette) e Bob (Harvey Keitel) organizam um jantar para 12 pessoas. Mas, quando o filho de Bob chega sem avisar e faz o número virar 13, Anne, supersticiosa, decide que a empregada Maria (Rossy de Palma) precisa se tornar a 14ª convidada.

Os americanos Bob (Harvey Keitel) e Anne (Toni Collette)/ Divulgação

A anfitriã então prepara Maria, lhe emprestando uma roupa e pedindo que ela não beba  nem fale muito. Para todos os efeitos, Maria seria uma convidada espanhola misteriosa. Sua única função: ocupar um lugar à mesa para que Anne se livre do número 13.

O que a americana não esperava, no entanto, é que Maria fosse fazer sucesso entre seus convidados importantes e refinados, conquistando até o coração de um deles. A partir daí, Anne, que tratava a funcionaria “como se fosse da família, passa a agir com hostilidade e desespero.

A princípio, a trama pode parecer simples, mas seu desenvolvimento abriga diversas qualidades especiais. Conforme Maria vai crescendo na narrativa – graças ao roteiro e a belíssima interpretação de Rossy de Palma – algumas tensões sociais interessantes saltam aos olhos. A principal delas, sem dúvidas, é a relação entre Anne e Maria, patroa e empregada.

Maria (Rossy de Palma) chegando ao jantar dos patrões / Divulgação

Nesse aspecto, Madame faz lembrar um pouco o longa brasileiro Que Horas ela Volta?, de Anna Muylaert. Apesar de ser ambientado na França, lidar com outras nacionalidades e se tratar de um filme de comédia, a dinâmica social entre Anne,  Maria, Val (Regina Casé) e Bárbara (Karine Teles) é muito parecida.

Enquanto atende plenamente às expectativas da patroa, Maria, uma espanhola que trabalha para americanos, é considerada “parte da família”. Mas, quando se envolve com um dos convidados do jantar, permitindo-se viver o que deseja como nunca havia feito antes, a empregada  causa certo incômodo e sai do lugar que lhe estaria destinado para sempre. Assim, ela passa a ser tratada como alguém ingrata e inconveniente. Alguém que não reconhece a generosidade dos patrões.

O que sentimos ao ver Val entrando na piscina em Que Horas ela Volta? é muito semelhante ao sentimento que Madame deixa com seu final. Claro, que guardadas as devidas proporções.

De fato, Madame é engraçado e bem realizado, contando com atuações divinas e até Ragatanga versão espanhol na trilha sonora. Amanda Sthers conseguiu contornar o que poderia dar errado em sua abordagem extremamente debochada e fazer deste filme uma obra divertida e relevante.

 

Ficha técnica

Direção: Amanda Sthers

Duração: 1h30

País: França

Ano: 2017

Elenco: Rossy de Palma, Toni Collette, Harvey Keitel

Gênero: Drama, Comédia, Romance

Distribuição: Califórnia Filmes

 

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