As aves empoderadas de Tuca & Bertie, uma série original Netflix

Quando duas aves antropomorfizadas vêm para nos contemplar com situações do dia a dia pós-contemporâneo, é comum que associemos o seu universo fantasioso ao de outra animação bem famosa; e de origem da mesma plataforma de streaming. Tendo estreado no dia 3 de maio deste ano, Tuca & Bertie, o mais recente desenho para adultos da criadora Lisa Hanawalt – que encabeça a produção artística de BoJack Horseman –, é também o programa de TV mais surreal e feminista da Netflix na atualidade.

Com produção executiva de Raphael Bob-Waksberg, o criador de BoJack, Tuca & Bertie tem não somente personagens bem similares aos da outra série, mas, principalmente, arcos dramáticos bem complexos e densos. Situações como relacionamentos amorosos, vida profissional, sexual e traumas de infância são comuns a ambos os trabalhos de Hanawalt e Waksberg.

Tuca (Tiffany Haddish) e Bertie (Ali Wong) / Divulgação

No entanto, algumas diferenças entre os universos desses desenhos – como os “homens-planta” de Tuca; a maior simplicidade do traço desta animação, e a generalização de seus ambientes urbanos – deixam clara a separação entre o mundo das aves feministas e o do cavalo deprimido BoJack.

Enquanto Bertie (voz da comediante Ali Wong), uma passarinha marrom e metódica, e Tuca (voz da também comediante Tiffany Haddish), uma tucana desbocada, são indivíduos bastante comuns, que vivem em apartamentos aproximados de um mesmo prédio de classe média, o desenrolar de sua trama é igualmente simples. É claro que, com as boas doses de surrealismo cômico e poético de uma animação adulta com animais, nada é fácil para a dupla de amigas protagonistas. Mas, ainda assim, as reviravoltas em suas vidas dão-se por motivos aparentemente banais.

Bertie passa a alimentar várias dúvidas quanto ao namorado Speckle (Steven Yeun) e ao compartilhamento do apartamento para com ele, tal como à sua função numa empresa enfadonha. Já Tuca, esta tem de enfrentar os próprios fracassos profissionais e as complicações de uma vida sexual agitada. Mesmo diferentes, Tuca e Bertie nutrem uma amizade muito sincera uma pela outra, e apoiam-se em praticamente tudo.

Imagem: divulgação

Ademais, a questão mais relevante e que merece destaque na produção é, com certeza, a desigualdade de gênero que afeta as mulheres – e as fêmeas – daquele cenário. Problemas como abuso físico e psicológico, diferença no tratamento profissional, estereótipos sexistas e a necessidade do próprio movimento feminista para todos são recorrentes na original Netflix.

Há momentos realmente tristes na animação, como a retratação de um assédio sexual de infância, e que trazem bastante representatividade e importância social ao desenho. Além disso, há cenas de sexo e de masturbação feminina relativamente contidas, mas que dão um toque de crueza e verossimilhança à história das aves divertidas.

Bertie (Ali Wong), Tuca (Tiffany Haddish) e Speckle (Steven Yeun) / Divulgação

Figuras excêntricas e sempre interessantes atraem o espectador facilmente, ainda mais pela curta duração de seus dez episódios (de aproximadamente 25 minutos, cada), e que auxiliam na fluidez e na renovação das diversas subtramas. Para a espectadora feminina, pode ser que as desventuras da passarinha e da tucana soem mais familiares; mas, se você for homem, não subestime-a: a série pode ser admirada por quaisquer sexos.

Colorida, estridente, altamente irônica e, até mesmo, cruelmente engraçada, Tuca & Bertie é aquele tipo de programa que incentiva-o a dar o play várias vezes após o último episódio. Se você gosta de assistir a séries sobre jovens desestabilizados e imperfeitos, sem muito receio de julgamentos e cheios de vícios não saudáveis, esta é a produção do gênero mais hilária para maratonar – e também para enfatizar o feminismo pós-contemporâneo com naturalidade, é claro.

Ficha técnica

Criação: Lisa Hanawalt

País: EUA

Ano: 2019

Elenco: Tiffany Haddish, Ali Wong, Tessa Thompson

Gênero: Animação, Comédia, Drama

Distribuição: Netflix

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