O trio – de ouro – dos filmes solos de super-heroínas (Marvel e DC)

Das maiores super-heroínas das indústrias Marvel e DC que foram retratadas no cinema, pouquíssimas são lembradas por seus fiéis espectadores. Viúva Negra, Gamora, Elektra, Mulher-Maravilha e Mulher-Gato – esta que, seguindo fielmente os quadrinhos, seria categorizada como super-vilã – são as figuras femininas mais populares desses universos ficcionais. Algumas outras personagens saíram diretamente da literatura geek para as telonas, como Nebula (Guardiões da Galáxia), Feiticeira Escarlate (Vingadores), heroínas X-Men (como Jean Grey, Vampira, Tempestade e Mística), Hera Venenosa (Batman & Robin), Batgirl (Batman & Robin) e Arlequina (Esquadrão Suicida).

Passando para as séries de televisão, temos Agente Carter, Supergirl e Jessica Jones como protagonistas femininas em séries homônimas. Isso nos leva à uma simples reflexão: assim como na TV, no cinema, temos apenas três live-actions solos de super-heroínas dos quadrinhos mais famosos (até o momento desta matéria). Vamos, portanto, focar em nosso “trio de ouro”: Mulher-Gato (2004), Elektra (2005) e Mulher-Maravilha (2017).

1. MULHER-GATO (2004)

Imagem: divulgação

Primeiro, precisamos dizer que esse filme não agradou muita gente – incluindo a crítica especializada. Mas, considerando que ele é um dos únicos filmes solos de super-heroína, a gente põe, sim, dentro do quesito “de ouro”, assim como os outros dois debaixo. Pronto, agora podemos seguir.

Em meio às falhas sucessivas no roteiro e problemas de execução, Mulher-Gato conta com uma forte representatividade. O longa-metragem foi a terceira adaptação cinematográfica da antagonista de Batman, que ganhou seu próprio filme no início dos anos 2000. Halle Berry deu vida à Patience Phillips – uma releitura de Selina Kyle (a Mulher-Gato dos quadrinhos) –, protagonista do filme cuja história não tem nada a ver com o enredo original da personagem.

Berry foi a primeira e única mulher negra da História a ganhar o Oscar de Melhor Atriz, dois anos antes do lançamento de Mulher-Gato. Após anunciarem sua escalação para o papel principal, as expectativas da crítica para o filme não poderiam ter sido mais altas. Quanto ao público, os fãs mais fervorosos e conservadores com certeza sentiram insatisfação ao se depararem com uma Mulher-Gato negra. Um fato interessante é que Berry não foi a primeira atriz negra a interpretar a personagem; em 1966, a cantora Eartha Kitt encarnou Selina na televisão.

Voltando ao longa de 2004, apesar do ótimo elenco (além de Berry, Sharon Stone foi escalada para viver a vilã), a história fraca não é capaz de sustentar o filme. Os efeitos especiais de CGI pecam bastante em qualidade e as sequências de ação não têm nada de especial. Algumas cenas, entretanto, demonstram bem o poder feminino da protagonista – como quando ela luta com bandidos em uma joalheria. Além da Mulher-Gato e da vilã de Stone, a melhor amiga interpretada por Alex Borstein integra o time de mulheres cheias de personalidade.

Mesmo assim, o suposto “girl power” do filme fica ofuscado pela hiperssexualização da personagem-título. Não é novidade que a Mulher-Gato é sexualizada desde os quadrinhos, mas, como protagonista do filme em questão, tal representação deveria, no mínimo, ter sido reduzida – mas parece que aumenta. A roupa de couro e o chicote não poderiam remeter mais a fetiches masculinos; o sentimento de revanchismo da vilã não poderia ser por um motivo mais fútil (aparência), e o par romântico de protagonistas não poderia ser mais insosso. Failed.

2. ELEKTRA (2005)

Imagem: divulgação

Tal como Mulher-Gato, o filme solo da Elektra não foi – e não é – visto com bons olhos. Mas, diferentemente do primeiro, esse aqui abraça a galhofa ainda mais. Jennifer Garner foi a escolhida para viver a personagem do mundo do Demolidor, em uma época em que as noções de empoderamento feminino não eram tão exploradas quanto atualmente. E, seguindo a onda de Mulher-Gato, Elektra foi vendido como um filme “daquela namorada sexy do Demolidor”.

Garner já havia interpretado a personagem no filme do Demônio de Hell’s Kitchen em 2003, mas, mesmo com a desaprovação do longa por grande parte do público, a 20th Century Fox decidiu lançar um filme solo da heroína em 2005. O resultado foi ainda pior do que o de Demolidor – O Homem Sem Medo.

Em Elektra, a personagem-título – que se tornou uma assassina profissional após a própria ressurreição – tem como tarefa acabar com a vida de Mark (Goran Višnjić) e de sua filha adolescente, Abby (Kirsten Prout). Sensibilizada pela família, Elektra acaba por não cumprir sua missão e, ainda mais, passa a ter uma relação com os dois. A princípio, o envolvimento afetivo da heroína com a jovem de treze anos poderia ter sido algo bom para a história, mas isso remete muito mais à ideia de que as mulheres teriam o dom natural para lidar com crianças, do que o contrário – vulgo, maternidade compulsória.

Ou seja, no primeiro filme solo da personagem, o conflito principal é desencadeado por seu afeto nutrido por uma menina. Quantas vezes já vimos isso durante a jornada de um super-herói masculino? Pouquíssimas, não é? Mas, Elektra não é homem, ela é mulher, portanto, bondade não basta para ser uma “verdadeira super-heroína”. Também é preciso um corpo torneado e vestido por trajes colados, decotados e que deixem a barriga de fora. Super prático, não é mesmo? – não. Tudo para agradar a audiência masculina.

Não precisamos nem comentar sobre as sequências de ação clichês e sobre os efeitos especiais mal feitos. Galhofada completa.

3. MULHER-MARAVILHA (2017)

Imagem: divulgação

Mulher-Maravilha foi um dos filmes mais bombados deste ano. O longa-metragem foi um sucesso de bilheteria e de crítica. “Finalmente!”, podemos ouvir o público ecoar. Finalmente a DC acertou em um filme de seu universo cinematográfico, e finalmente uma super-heroína ganhou um live-action solo digno de sua incrível personalidade.

Toda a origem de Diana Prince é mostrada, desde sua infância na ilha de Themyscira, até sua participação na Primeira Guerra ao lado de soldados norte-americanos. As cenas de luta foram muito bem elaboradas e conduzidas, e não há closes constrangedores no corpo da protagonista. Gal Gadot trouxe uma Diana sensível e determinada, disposta sempre a lutar pelos ideias mais nobres.

Na primeira parte, o núcleo das Amazonas é visualmente deslumbrante, retratando de forma bastante apropriada o poder e a independência das deusas da ilha – o que já traz fôlego o suficiente para o espectador acompanhar o resto do filme com gosto. Alguns diálogos feministas de Diana dão um gás ainda maior à produção, demonstrando a naturalidade das noções de equidade entre os gêneros. Já no terceiro ato, o longa perde um pouco de sua força por causa de um vilão mal introduzido, mas isso não é o suficiente para desvalorizar a história.

Rompendo com vários estereótipos explorados em Mulher-Gato e em Elektra, Mulher-Maravilha traz um novo olhar sob as heroínas dos quadrinhos, de forma a reinventar toda a sua representação nas telonas. Mesmo assim, precisamos destacar que há, sim, problemáticas envolvendo a padronização da beleza de quase todo o elenco (mulheres brancas e magras, principalmente).

Seguindo a linha desse filme, os próximos longas de heroínas da Marvel e da DC a serem lançados são, fora de ordem: Capitã Marvel, um filme sobre as super-vilãs da DC Comics (com o título provisório de “Sereias de Gotham”), um filme da Batgirl e a sequência de Mulher-Maravilha. Esperemos que os roteiristas e diretores adaptem essas personagens de forma cada vez menos estereotipada. Sigamos, assim, evoluindo continuamente.

 

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