Alelí, uma dramédia familiar para tempos de quarentena

“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”, escreveu Tolstói no início do romance Anna Karenina. E a família Mazzotti, protagonista do longa uruguaio Alelí, parece não fugir a essa observação do autor russo. 

‘Alelí’/ Divulgação

Lançado no Brasil direta e discretamente pela Netflix, o filme de  Leticia Jorge Romero (Tanta Água, 2013) tem início após a morte do patriarca Mazzotti, quando os três filhos do falecido precisam decidir juntos o que fazer com a casa de praia da família e com o futuro da viúva Alba (Cristina Morán).

Sob o desnorteamento do luto, Ernesto (Néstor Guzzini) emotivamente decide “ocupar” o lugar do pai  e assumir o legado que ele deixou; Lilián (Mirella Pascual), a mais velha, se posiciona praticamente, tentando resolver burocracias de forma racional e confrontando o que Ernesto deseja conservar; e Silvana (Romina Peluffo), a caçula de 40 anos ainda vista como irresponsável pelos demais, não encontra espaço para se manifestar e prefere lidar com a dor da perda sozinha, fugindo das convenções sociais (missas, almoços de família).

AS (DES)GRAÇAS DA CONVIVÊNCIA 

Espirituosa, a comédia dramática lança olhar sobre os efeitos da convivência forçada entre três adultos de personalidades completamente diferentes; adultos que já formaram outras famílias e que levam vidas separadas uns dos outros. Irmãos que acabam se entregando à infantilização das picuinhas, provocações e crises de ciúme, o que os torna incapazes de lidar com as demandas da velhice da mãe ou com tomadas de decisão conjuntas.

Silvana (Romina Peluffo) e Ernesto (Néstor Guzzini)/ Divulgação

Vem das situações mais tolas, portanto, o humor satírico desenvolvido por Jorge Romero neste caso de família. Seja da revolta de Alba por ser tratada como uma incapaz pelos filhos mesmo estando absolutamente lúcida, da falta de paciência de Ernesto e Silvana com uma vizinha fofoqueira ou dos bobos desenhos que Lilián faz por recomendações de seu psicólogo. 

Nesse cenário, a tal casa da praia, chamada Alelí, aparece como personagem física e emotiva importante. É Alelí que reúne muitas das memórias de infância que o trio mantém em comum, e é também a possível venda dessa casa para um projeto turístico que serve de gatilho para aflorar os ânimos e desencadear conflitos sobre os papéis de cada um no grupo; sobre suas bênçãos e maldições por serem parte de tal família. Em meio ao caos, porém, aprendemos que apesar da sucessão de enfrentamentos e divergências, existe afeto e cuidado entre os Mazzotti. 

Não há de fato nada de extraordinário no longa, mas Alelí é um filme agradável e sensível; cujo roteiro apresenta-se genuinamente competente e bem-humorado. Um filme que facilmente gera identificação no público e que não poderia ter estreado em época melhor. No meio de uma quarentena, com todas as (des)graças do convívio familiar acontecendo nos lares de todo o mundo, a produção se destaca. Hoje, afinal, somos todos um pouco Mazzotti.

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Ficha Técnica:

Direção: Leticia Jorge Romero

Duração: 1h28

País: Uruguai, Argentina

Ano: 2019

Elenco: Néstor Guzzini, Mirella Pascual, Cristina Morán, Romina Peluffo

Gênero: Comédia, Drama

Distribuição: Disponível na Netflix

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