As Cores do Divino: fé e diversidade

Em  As Cores do Divino, seu primeiro longa-metragem, o cearense Victor Costa Lopes pretende traçar um panorama dos efeitos do conservadorismo na vivência de pessoas LGBTI+ que frequentam espaços religiosos. Para tanto, ele se debruça sobre uma velha questão: é possível que exista comunhão entre fé e diversidade?

‘As Cores do Divino’/ Divulgação

A resposta, a princípio, pode aparentar ser óbvia, principalmente se considerada a postura intolerante e até violenta das instituições religiosas hegemônicas do país sobre a diversidade. Mas a maior qualidade do documentário certamente é permitir que seus nove personagens, indivíduos de diferentes fés, orientações sexuais e identidades de gênero, compartilhem suas próprias histórias sobre religiosidade livremente, com o recorte e da forma que desejarem. A maior qualidade e também seu maior defeito.

MONTAGEM E ABORDAGEM

Se por um lado a pouca interferência do diretor nos relatos que compõem o filme nos passa a sensação de respeito aos entrevistados, que têm a chance de tomar as rédeas de suas narrativas, por outro faz parecer que falta direcionamento na abordagem do tema. 

Tímido no quesito confronto de realidades e bastante convencional do ponto de vista técnico, o longa dá voltas por lugares de certa forma comuns. Salva por uma ou outra fala de maior destaque, a pluralidade das vozes ouvidas, muito promissoras, por sinal,  se perde em uma estrutura de montagem (também realizada por Lopes) que não supera o formato de breves apresentações.

Imagem: divulgação

Em entradas únicas e sucintas, um após o outro, cada entrevistado expõe um pouco do que pensa sobre sua religião e divide algumas histórias que dizem respeito à superação (ou não) da sensação de inadequação dentro das comunidades religiosas. Fica a impressão, porém, de que essas pessoas teriam muito mais a dizer caso fossem estimuladas por perguntas específicas, que provocassem o acesso a lugares de maior naturalidade e as fizesse abandonar os discursos que criaram antecipadamente para as gravações.

Escapa das lentes do diretor, pelo menos no material final,  parte da essência espontânea dos enfrentamentos de cada personagem com suas nuances mais profundas de conflitos particulares; algo que seria enriquecedor para o delinear do panorama desejado e que permanece latente durante todas as entrevistas, prejudicando a imersão do espectador nos encontros postos em tela. Não se trata, claro, de explorar as feridas alheias, mas de dar tempo, ainda respeitando o espaço de escuta, para que o germinar dos pormenores de trajetórias individuais ajudem a compor os entretons das cores do divino, afinal.

De todo modo, a análise inicial proposta por Victor Costa Lopes acontece, e sua importância é indiscutível.

As Cores do Divino está disponível desde seu lançamento online em 28/06 (Dia do Orgulho LGBTI+), gratuitamente e por duas semanas, no site da distribuidora Embaúba Filmes. Depois do dia 12/07, o filme  segue disponível para locação.
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Trailer:
(Fonte: Embaúba Filmes/ YouTube)

Ficha Técnica:

Direção: Victor Costa Lopes

Duração: 1h18

País:  Brasil

Ano: 2020

Gênero: Documentário

Distribuição: Embaúba Filmes

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