Absorvendo o Tabu: indicado ao Oscar 2019, curta trata dos estigmas da menstruação na Índia

Absorvendo o Tabu (Period. End of Sentence, no original) é um dos cinco documentários em curta-metragem indicados ao Oscar 2019. Dirigido pela cineasta Rayka Zehtabchi, o filme discute como a menstruação – e o feminino, no geral – é estigmatizada na Índia.

A princípio, a produção se preocupa em contextualizar as vivências das mulheres da zona rural do país, expondo depoimentos que denunciam que, na região, o acesso a informações sobre o corpo feminino é praticamente inexistente. As mulheres entrevistadas não têm a mínima ideia de por que menstruam, e muitas pessoas consideram a menstruação como uma doença. Uma senhora chega a dizer que a menstruação “é sangue ruim que sai da gente”.

‘Absorvendo o Tabu’ / Divulgação

Zehtabchi usa suas lentes para registrar o quanto o assunto é constrangedor para mulheres e meninas. Quando questionadas sobre algo que é natural de seus corpos, elas riem e abaixam a cabeça, demonstrado embaraço diante de algo que na verdade é, como diz o título em português, um tabu.

Depois, a diretora aborda as consequências práticas e sociais da invisibilidade da menstruação, apontando que corpos femininos são políticos e, por isso, alvos dos mais variados níveis opressões e negligências. Negar conhecimento às mulheres sobre seus próprios corpos é uma forma de controle patriarcal.

Dois depoimentos deixam o viés político do controle sobre os corpos femininos muito claro: no primeiro, a entrevistada diz usar qualquer tipo de pano para conter o fluxo de sangue, algo que claramente coloca em risco sua saúde, algo que pode até matá-la; no segundo, uma mulher diz ter abandonado a escola porque era muito difícil ter que ir trocar de roupa sempre para manter-se seca. Nenhuma delas nunca tinha usado um absorvente íntimo – ou por eles serem muito caros, ou por desconhecimento.

Imagem: divulgação

Mulheres podem adoecer e são obrigadas a deixarem escolas simplesmente por serem mulheres. Por menstruarem, são consideradas incapazes de ter educação e autonomia, e, consequentemente, são destinadas a casamentos compulsórios que mantém privilégios masculinos e estruturas de poder misóginas. Mulheres menstruam, e por isso são consideradas inaptas para a vida pública.

Quando uma máquina de absorventes higiênicos é inserida no filme, as perspectivas antes tão engessadas começam a mudar. Algumas mulheres que nunca antes haviam trabalhado se unem numa espécie de confecção de costura para fabricar absorventes de baixo custo e convencer outras mulheres da comunidade a usá-los. Assim inicia-se um modesto, mas emocionante e promissor, ciclo de coletividade, troca e autonomia financeira feminina.

Tanto a máquina quanto o documentário (disponível na Netflix), foram financiados por alunas da escola Oakwood ,em Los Angeles, através de venda de bolos, e das empresas Kickstarter e Yogathon. Graças a pequena interferência da equipe do filme, criou-se uma rede de apoio e informação entre mulheres da região. Com a venda dos absorventes, ganham aquelas que passam a usá-los e as que trabalham para confeccioná-los.

Imagem: divulgação

Absorvendo o Tabu é um filme importante, mas com recorte muito específico. Ele trata de uma situação extrema, na qual algumas mulheres sequer sabem o que é um absorvente e chegam a abrir mão da escola depois de começarem a menstruar. Por isso, não podemos nos enganar: a realidade do filme, em maior ou menor grau, é universal. Ainda hoje no Brasil, por exemplo, vemos jovens e mulheres adultas com vergonha de levarem seus absorventes até o banheiro sem escondê-los. A menstruação não é tabu apenas na zona rural da Índia.

Ser mulher, independente da localização geográfica e do contexto histórico-social, ainda é um constante processo de se autoafirmar e lutar contra imposições de poderes interessados em marginalizar existências femininas. Por isso, o filme apoia a organização sem fins lucrativos chamada “The Pad Project”, cujo objetivo é distribuir absorventes para jovens que vivem em áreas empobrecidas da África, Ásia e América Central, estimulando-as a continuarem na escola. O documentário, portanto, é mais do que um registro, é elemento de transformação social.

Ficha técnica

Direção: Rayka Zehtabchi

Duração: 26 min

País: EUA

Ano: 2018

Gênero: Documentário

Distribuição: Netflix


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