A Camareira representa o México no Oscar 2020

Eve (Gabriela Cartol),  protagonista de A Camareira, filme representante do México no Oscar 2020, tem 24 anos e trabalha num luxuoso hotel da Cidade do México. Mãe solo, ela depende de alguém para cuidar de seu filho enquanto trabalha por extensas jornadas.

‘A Camareira’ / Divulgação

Dirigindo seu primeiro longa-metragem, Lila Avilés opta por filmar a personagem de Cartol sempre dentro de seu local de trabalho. É assim, portanto, que a diretora conduz o espectador por entre as particularidades da rotina de bastidores dos serviços de hotelaria.

Todos os dias são mais ou menos iguais para Eve. Resiliente, reservada e solitária, a jovem aposta na disciplina e numa porção de horas extras para deixar o andar 21 e tornar-se encarregada do andar 42, a cobertura. Como distração, observa pertences deixados para trás pelos hóspedes que vão embora. Ausente como mãe, ela tenta dar algum conforto material ao filho. Para si mesma, deseja apenas receber o vestido vermelho que encontrara esquecido em um dos quartos e que lhe fora prometido por seus superiores. 

TRABALHO INVISÍVEL

O trabalho que Eve realiza é invisível. Ela deve manter os quartos limpos e arrumados, mas recebe orientações para não se deixar ver nas áreas de circulação de hóspedes. Existe, aliás, toda uma estrutura à parte para o vai e vem de funcionários que precisam transitar o mais discretos possível. É como se o serviço dos empregados fosse parte da estrutura física do lugar, algo muito mais mecânico do que humano. O hotel, portanto, opera como um personagem-palco dos comentários sociais desenvolvidos pela narrativa.

Imagem: divulgação

Seria impossível não tecer alguma comparação entre o longa de Avilés e o indicado mexicano ao Oscar 2019, Roma. De certa maneira, A Camareira traz para a contemporaneidade e dialoga com discussões sobre mulher e trabalho que no ano passado foram levantadas por Alfonso Cuarón.

Tal como Cleo, Eve é uma mulher jovem e humilde, de ascendência indígena, que trabalha na manutenção do cotidiano de outras pessoas. Uma mulher de poucas palavras e muitos pensamentos – e aqui vale destacar a atuação contida e profundamente consistente de Gabriela Cartol.

Seja a partir de uma casa de família de classe média dos anos 1970 ou de um hotel de luxo dos anos 2010, Cuarón e Avilés retratam mulheres serviçais. Tanto Cleo como Eve representam o trabalho extenuante que sobra para as mulheres em situação de maior vulnerabilidade social. 

Do mesmo modo, enquanto Cleo escuta da patroa que é como um membro da família, Eve escuta, e internaliza, que é parte da empresa – por isso, e para crescer ali dentro, deve se dedicar ao máximo em suas tarefas. Nada disso, porém, as protege da exploração e da falta de reconhecimento – que apenas mudam de forma com o passar dos anos, mas não de finalidade.

CLASSE E MATERNIDADE

A câmera de Lila Avilés nunca abandona Eve em seus deslocamentos pelo hotel. Durante a repetição de atividades percebemos, pouco a pouco e sempre através de pequenas situações, as contradições que se impõem nos detalhes do cotidiano da mulher protagonista. 

Imagem: divulgação

Tais contradições ganham fôlego quando uma das hóspedes, a argentina Romina (Agustina Quinci), pede para que Eve olhe seu bebê alguns minutos por dia, para que ela possa ao menos tomar um banho com tranquilidade. Mãe de primeira viagem, Romina sente-se sobrecarregada por ficar trancada num quarto enquanto o marido faz reuniões na capital mexicana. Em seus desabafos, ela diz sentir muita falta do emprego e de ter independência. 

Eve, por outro lado, mal vê o filho. Sai cedo para estudar e trabalhar e volta para casa tão tarde que a criança está sempre dormindo. Além disso, o trajeto de casa para o hotel é longo, e às vezes Eve perde o último ônibus e precisa dormir no trabalho.

Apesar de parecer  bastante cordial e generosa com Eve, protagonizando, inclusive, os raros momentos em que a camareira não parece invisível aos clientes do hotel, a personagem de Quinci possui a função de tensionar realidades e evidenciar diferenças de classe presentes não apenas no México, mas em toda América Latina. 

Numa época em que tanto se fala sobre precarização do trabalho e consequências do avanço de medidas neoliberais na vida de mulheres de baixa renda,  é muito positivo ver o cinema mexicano colocando no centro de suas histórias as mulheres que são a base de todas as sociedades latinas. Como resultado, tem-se um filme atual, que retira poesia da esperança da emancipação – de classe, intelectual e sentimental. 

Trailer: 
(Fonte: Supo Mungam Films/ Divulgação)

Ficha Técnica:

Direção: Lila Avilés

Duração: 1h42

País: México

Ano: 2019

Elenco: Gabriela Cartol, Teresa Sánchez, Agustina Quinci

Gênero: Drama

Distribuição: Supo Mungam Films

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