[Coluna] Assédio, da Globo, rema em direção às séries gringas, mas afunda nos clichês das novelas

Livremente inspirada no livro “A clínica: A farsa e os crimes de Roger Abdelmassih”, escrito pelo jornalista Vicente Vilardaga, a série Assédio estreou, no último dia 21, na plataforma de video on demand da Rede Globo, a Globo Play. Com 10 episódios de aproximadamente 40 minutos cada, um elenco repleto de estrelas da emissora e muita divulgação na internet, a produção faz uma releitura do caso Abdelmassih.

O ex-médico, que chegou a ser considerado o maior especialista brasileiro em reprodução humana, atendendo personalidades famosas da TV e da política, está condenado há quase 200 anos de prisão por ter violentado sexualmente e assediado dezenas de pacientes, enquanto elas estavam sedadas em sua conceituada clínica.

Na série, o nome Roger Abdelmassih é substituído por Roger Sadala e interpretado por Antonio Calloni. Logo no primeiro episódio, o personagem já é introduzido como um homem egocêntrico, que vive da imagem de cidadão religioso e divide o tempo entre trabalho, esposa e traições. Depois, outras situações passam a evidenciar sua violência, hipocrisia e misoginia.

A estreia de Assédio pega carona em um período em que séries internacionais como Big LIttle Lies e The Handmaid’s Tale fazem barulho. O protagonismo feminino está em pauta dentro e fora das telas, seja com o #MeToo do cinema, com o #EleNão das mulheres brasileiras contra o fascismo ou com o #NiUnaMenos das mulheres latinas pela vida de todas. Por isso, o que se espera de uma produção como essa é que ela colabore com o debate. E ela colabora, mas com limitações.

As protagonistas de ‘Assédio’ / Divulgação

Chama atenção – a princípio e positivamente – a quantidade de nomes de mulheres envolvidos na produção, começando pela criadora Maria Camargo. Hoje, o mínimo esperado de uma série que traz questões relacionadas às mulheres como assunto central é que ela seja majoritariamente conduzida por mulheres na frente e atrás das câmeras. O mínimo.

Também não passa despercebido a comoção que a estreia da série gerou, considerando os diversos elogios distribuídos pela internet. De fato, a narrativa se empenha em mostrar como as estruturas de opressão se articulam. Indo desde o homem que faz comentários duvidando da esposa ou se omitindo da criação dos filhos, passando pela jornalista mulher interessada em investigar o caso que é boicotada, até como homens usam a máscara do “cidadão de bem religioso” e “pai de família” para cometerem toda atrocidade que desejam com autorização e omissão da sociedade como um todo.

A produção ainda dedica bastante tempo para mostrar como Roger Sadala ganha a confiança e joga com os sonhos de maternidade de mulheres vulneráveis, que já passaram por muita frustração e que, muitas vezes, chegam para a consulta com o emocional (e às vezes com o financeiro) comprometido. Além disso, os momentos em que as personagens mulheres desenvolvem sua parceria, apoio mútuo e companheirismo são muito enriquecedores.

Mesmo com todo esse esforço, Assédio comete alguns deslizes graves – se levarmos em conta que o assunto chave é delicado e exige alguns cuidados. O primeiro deles: a série se vende como uma obra que reconta histórias baseadas em fatos reais sob a perspectiva das vítimas, mas não é exatamente assim que acontece.

A cada episódio uma nova vítima do médico é introduzida à trama central, como um novo elemento de um mesmo eixo narrativo. A primeira delas a ser apresentada é Stela (Adriana Esteves). Sua aparição se dá através de um depoimento, como se a personagem estivesse falando em um documentário. Ali, cria-se a sensação de que sim, as mulheres contarão suas histórias. Mas o perigo chega depois: as narrações em off e quebras de quarta parede de Antonio Calloni, representando os devaneios do médico estuprador, aparecem com muita frequência no meio da narrativa.

Antonio Calloni é Roger Sadala em ‘Assédio’ / Divulgação

Essa frequência é perigosa porque parte do pressuposto de que todo espectador tem total discernimento para entender que as falas do personagem não cumprem a função de questionar a veracidade das denúncias e do que ele fez, mas de reforçar seu cinismo. O problema desse pressuposto é o Brasil 2018. Em tempos de completo descolamento da realidade e exaltação de fake news, dar brechas para que um caso como esse seja questionado, ainda que sem intenção, é no mínimo arriscado.

Seria mais eficiente, portanto, desenhar essa figura sem lhe reservar grandes momentos de evidência e frases de impacto. Bastariam suas ações, como a própria série demonstra, para transmitir a mensagem de que, apesar de cometer atos que parecem monstruosos, o homem é apenas alguém privilegiado por sua masculinidade tóxica, que reproduz violências socialmente autorizadas e naturalizadas por uma cultura misógina. Talvez soasse melhor que essa figura do médico abusador serial fosse tecida por terceiros, e não por ele mesmo. Não se trata, afinal, de um tema passível de opiniões. Violência é violência.

Outro aspecto problemático de Assédio tem a ver com elementos que se dedicam a não abrir mão do clima melodramático de novela – que claramente deveriam ter sido deixados para trás em uma produção como essa.  Em diversas ocasiões, a trilha e os efeitos sonoros super utilizados e óbvios chegam a ser incômodos, por exemplo. Eles forçam climas de tensão em cenas onde optar pelo silêncio seria de extrema importância.

Além disso, um dos arcos mais inoportunos é o da jornalista que é mãe e omissa porque fica obcecada pela investigação do caso Sadala e deixa de dar atenção aos cuidados do filho. Falar sobre questões que envolvem a mulher também passa por desromantizar a maternidade. O desenvolvimento da relação entre essa mãe e seu filho soa, então, como dramático demais e completamente desnecessário ao andamento da trama.

Elisa Volpatto é a jornalista Mira Simões em ‘Assédio’ / Divulgação

Essas escolhas duvidosas aparentam ter muito mais a ver com imposições de um padrão Globo (aplicado principalmente às novelas) do que necessariamente com as ideias da equipe criativa. A Globo é referência mundial no quesito telenovela, mas será que algum dia ela se permitirá abrir mão do conservadorismo de suas fórmulas para enfrentar o mercado das séries mais desprendida ou preferirá manter seu reinado na TV aberta brasileira dentro de uma zona de conforto?

Esse questionamento se faz importante porque nem a não-linearidade narrativa, os movimentos de câmera, a introdução de linguagem documental, a quebra de quarta parede, a temática e as grandes atuações dão conta de contornar o melodrama e a linguagem ainda engessada da TV.

De qualquer forma, o uso de letreiros com o número do disque-denúncia ao final de cada episódio para incentivar mulheres a denunciarem qualquer tipo de violência é uma atitude que sempre merece destaque. Num país como o nosso, levar esse tipo de informação básica até a casa de muita gente através da TV aberta é fundamental – por enquanto a série está disponível apenas para assinantes do Globo Play, mas, como outras produções da Globo, deve chegar em algum momento à grade aberta da emissora.  

No geral, a dinâmica que envolve o burburinho da estreia de Assédio e os elogios por ela recebidos parece ter muito mais a ver com uma necessidade nossa, enquanto brasileiros, de ter uma série que trate de violência contra a mulher – aos moldes das já mencionadas Big Little Lies e The Handmaid’s Tale, por exemplo – sob uma ótica mais próxima do que, de fato, com a qualidade da nova produção global.

Mesmo tendo sido feita para o streaming da Rede Globo, Assédio não consegue se desprender do formato da televisão. Muito provavelmente porque há intenção da emissora em, futuramente, exibir a série em sua programação – como foi feito com Onde Nascem os Fortes.

Assim, a série autocensura suas potências e não explora as possibilidades que uma obra seriada oferece. Ela tenta, valendo-se de um tema pesado que envolve violência contra as mulheres, caminhar ao lado de séries estrangeiras que já alçaram voos pelo assunto com sucesso, mas fica bem aquém das expectativas e termina funcionando melhor como uma boa mini novela.

 

Trailer oficial: 

(Fonte: Globoplay / YouTube)

 

Ficha técnica

Criação: Maria Camargo

País: Brasil

Ano: 2018

Elenco: Antonio Calloni, Adriana Esteves, Elisa Volpatto

Gênero: Drama

Distribuição: disponível para assinantes na Globo Play

 

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