Deus salva o rei ou ampara a teledramaturgia global?

Depois que a RecordTV melhorou seus índices de audiência, conquistando seu lugar ao sol ao direcionar sua teledramaturgia para o nicho das novelas bíblicas e medievais, a Rede Globo acabou com mais um problema em mãos. Além de perder alguma parcela de audiência com um de seus maiores produtos (as novelas), e ser até mesmo chamada de “emissora demoníaca” em hashtags do Twitter por pessoas que debandaram para o canal do bispo Edir Macedo, a Globo enfrenta também as consequências da popularização das plataformas de streaming – que vieram para ficar e criaram o hábito das séries no público brasileiro.

Em uma clara tentativa de remediar os impasses entre audiência televisiva e novos hábitos do espectador (com o streaming), a emissora Global decidiu apostar em Deus Salve o Rei. A trama medieval do canal de televisão estreou no dia 9 de janeiro, ocupando a faixa das 19 horas – comumente destinada a novelas que traziam questões atuais e tendiam à comédia –, como foi o caso da bem-sucedida Cheias de Charme (2012). Pela fato de a adoção de tramas de época ser algo totalmente incomum ao horário, pode-se dizer que tal mudança foi um tanto quanto brusca na programação.

Ambientada entre os reinos fictícios de Montemor e Artena, a novela de Daniel Adjafre apresenta uma abertura lindíssima feita totalmente em 3D. Para o enredo funcionar, Deus Salve o Rei mostra uma mescla entre conflitos clássicos de um folhetim melodramático (paixões, traições e ambições), elementos específicos exigidos pela ambientação do enredo (batalhas de espada, crise de água e conspirações) e temáticas mais modernas – como o posicionamento da mocinha Amália, de Marina Ruy Barbosa, ou o sonho de Selena (Marina Moschen) de ser a primeira mulher a cursar a Academia Militar de Montemor.

A rainha de Montemor (Rosamaria Murtinho) com os príncipes Afonso (Romulo Estrela) e Rodolfo (Johnny Massaro) / Divulgação

Os investimentos em cenários, tecnologia, figurinos, marketing e atores da nova geração são notórios. Os efeitos visuais são muito bem executados, assim como a caracterização dos personagens e da cenografia. O elenco, certamente, foi escalado de forma a ser chamativo. Destacam-se nomes como Johnny Massaro (Príncipe Rodolfo) e Vinicius Calderoni (Marquês Istvan), responsáveis pelos ótimos alívios cômicos da novela, e Rosamaria Murtinho, pela breve, mas excelente participação como Rainha Crisélia de Montemor.

Deus Salve o Rei não é a primeira novela a carregar o título de ‘folhetim medieval”. Em 1989, foi exibida na Globo Que Rei Sou Eu?, de Cassiano Gabus Mendes. Já, a deste ano, foi a primeira do gênero a ter perfis nas redes sociais. Tal inovação mira nos espectadores que adoram uma série de TV e nos internautas que levantam hashtags de seus programas preferidos.

Assim, fica impossível evitar as comparações entre Deus Salve o Rei, a grandiosa produção britânica Game of Thrones (da HBO) e a novela medieval da concorrência da Globo, Belaventura (RecordTV) – transmitida também às 19 horas.

As diferenças entre Game of Thrones e uma novela, no entanto, são várias. Para começo de conversa, uma novela brasileira costuma se estender por, aproximadamente, 200 capítulos. Por isso, os recursos narrativos diferem. Por exemplo, enquanto uma série precisa de ganchos (artifícios de roteiro para estender as tramas ao longo de episódios ou temporadas distintas), uma novela segue um ritmo contínuo, diário e, muitas vezes, arrastado. Além do mais, novelas não tendem a esbanjar cenas de violência ou sexo, dada a classificação etária do horário. Nesse caso, o melodrama (adaptado às necessidades da novela em questão) entra como, digamos, o “recurso envolvente da trama”. Em relação a Belaventura, Deus Salve o Rei tem se mostrado superior por motivos muito claros: orçamento e infraestrutura. Segue sendo difícil para a Record TV enfrentar o “padrão Globo de qualidade”.

Mesmo com pequenos declínios na audiência desde sua estreia, a nova novela da Globo banca sua aposta temática, ousada para os padrões conservadores da programação. Basta saber se o público comprará a ideia.

 

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